Territórios de Saberes na Construção da 8ª Conferência Municipal de Saúde de Uruguaiana-RS
Palavras-chave:
Participação, social, Controle, Formação, saúdeResumo
As Conferências de Saúde constituem espaços fundamentais e insubstituíveis de participação social e deliberação sobre as políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS), assegurando a gestão democrática e o fortalecimento do controle social. A potência desse processo, contudo, não se restringe aos momentos formais da plenária final, pois é gestada e consolidada diretamente nos territórios por meio de dinâmicas contínuas de escuta ativa, mobilização comunitária e produção coletiva de propostas. Em Uruguaiana/RS, a organização da 8ª Conferência Municipal de Saúde envolveu pré-conferências descentralizadas direcionadas de forma específica a segmentos historicamente vulnerabilizados: População em Situação de Rua e Vulnerabilidade Social, População LGBTQIAPN+, População Negra e Povos de Terreiro, Povos Indígenas, População Quilombola, População Rural e População Circense, acompanhadas por um encontro temático sobre o Sistema de Saúde e a Humanização. Nesse contexto, este trabalho tem como objetivo relatar a participação de uma estudante do curso de Medicina da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Uruguaiana, bolsista do projeto de extensão AFIRMA-SUS: Conexão de Saberes, no processo de construção da conferência, destacando as contribuições percebidas dessa imersão prática para a compreensão da participação social, da equidade em saúde e da reorientação da formação médica. Metodologicamente, trata-se de um relato de experiência de abordagem qualitativa e caráter crítico-reflexivo, elaborado a partir da participação direta da discente nas etapas operacionais e deliberativas do evento. A experiência compreendeu o acompanhamento presencial das rodadas de escuta nas pré-conferências, o registro e a sistematização temática das propostas produzidas nos encontros descentralizados, além da participação formal na mesa de abertura da conferência como representante do projeto extensionista. Os resultados demonstraram de forma expressiva que a escuta atenta dos territórios constitui uma etapa essencial da construção democrática das políticas públicas, viabilizando que vivências cotidianas, dificuldades de acesso e reivindicações históricas fossem traduzidas em propostas coletivas para o fortalecimento do SUS municipal. A etapa de sistematização das pautas possibilitou acompanhar o percurso entre escuta sensível, organização das demandas, deliberação e formulação de diretrizes, comprovando que usuários(as), trabalhadores(as) da saúde, movimentos sociais, universidade e instâncias de controle social atuam de forma integrada como legítimos produtores de conhecimentos em saúde. Identificaram-se demandas prioritárias relacionadas às barreiras de acesso aos serviços, à qualificação do acolhimento, ao enfrentamento das discriminações institucionais, à humanização do cuidado e à exigência de políticas públicas sensíveis às características sociais, culturais e territoriais da população local. A mesa de abertura, sob o tema Saúde, Democracia e Soberania: cuidar do povo é cuidar do Brasil, reafirmou a necessidade de uma escuta permanente das comunidades periféricas, rurais e marginalizadas, demonstrando que a participação social ultrapassa os momentos formais de votação, constituindo uma prática continuada de diálogo, mobilização e disputa de prioridades. Na formação médica, a vivência ampliou a compreensão do SUS como uma construção social e política, exigindo a articulação entre raciocínio clínico, território, equidade, democracia e direitos humanos. O contato com as propostas territoriais possibilitou reconhecer que as necessidades em saúde não podem ser analisadas exclusivamente por critérios biomédicos, pois são atravessadas por desigualdades, condições de vida, identidades, culturas e formas distintas de relação com os serviços públicos. O reconhecimento dos saberes ancestrais dos povos de terreiro, indígenas, quilombolas e demais grupos aproximou a experiência de uma perspectiva decolonial, ao questionar a centralidade exclusiva do conhecimento acadêmico e reconhecer os territórios como espaços de produção de saberes. Embora os resultados reflitam as percepções construídas a partir da vivência discente, indicam que a inserção discente em processos de controle social amplia a compreensão sobre políticas públicas e a responsabilidade ética profissional. Conclui-se que a construção da 8ª Conferência Municipal de Saúde de Uruguaiana evidenciou que cuidar da população significa criar condições para que suas vozes definam as prioridades do sistema de saúde. A experiência reafirmou a participação social como força do SUS e destacou a escuta territorializada como prática democrática de produção do cuidado. Para a formação médica, o processo constituiu um cenário de aprendizagem extramuros, aproximando universidade, serviços, movimentos sociais e comunidades na formação de profissionais comprometidos com a justiça social, a equidade e os direitos humanos.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Territórios de Saberes na Construção da 8ª Conferência Municipal de Saúde de Uruguaiana-RS. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123508. Acesso em: 3 nov. 2026.