Corpo, Maternidade e Interseccionalidade: Vivências Gestacionais em Contexto Urbano Fronteiriço no Sul do Brasil

Autores

  • Juliana Fagundes
  • Maria Luisa Hipólito Gundim dos Santos
  • Bianca Naely Barboza da Silva
  • Marina Victoria de Oliveira Carvalho
  • Edivânia da Conceição Silva
  • Marilia Kosby

Palavras-chave:

Normatividade, desigualdade, social, saúde, mulher, experiência, materna, maternidade, solo

Resumo

A gestação e a maternidade são com frequência biologizadas e romantizadas como experiências universais e positivas. No entanto, sob uma perspectiva antropológica, configuram-se como processos sociais, simbólicos e políticos, atravessados por normas de gênero, desigualdades estruturais e expectativas culturais. Essa abordagem é de grande relevância pois permite não apenas problematizar a dimensão biológica, mas também valorizar vivências singulares, ampliar a empatia social e orientar práticas de saúde mais inclusivas e humanizadas. O estudo exploratório apresentado aqui teve por objetivo analisar experiências gestacionais de mulheres em distintos contextos sociais e afetivos, evidenciando como marcadores de classe, raça, território, rede de apoio e estado civil influenciam a vivência da gravidez e da maternidade. A pesquisa foi realizada na sala de espera da Estratégia Saúde da Família (ESF-21), em Uruguaiana (RS), no contexto da disciplina Antropologia do Corpo e da Saúde, vinculada ao curso de Medicina da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). O estudo adotou uma abordagem qualitativa, utilizando entrevistas semiestruturadas com mulheres atendidas no local, em diferentes dias, associadas ao método de observação participante, que permitiu maior imersão no campo e compreensão das dinâmicas estabelecidas. As falas foram transcritas e organizadas por eixos temáticos, a partir de uma leitura interseccional. Para a análise, foram destacadas as contribuições de três mulheres, cujas narrativas pessoais foram valorizadas como fontes centrais para a compreensão das experiências gestacionais, reconhecendo a subjetividade como elemento fundamental no processo interpretativo. Os resultados evidenciaram trajetórias contrastantes e complexas. A primeira participante, gestante branca, de classe média e casada, com rede de apoio familiar sólida, demonstrou que a maternidade pode ser vivida com relativa segurança material, mas atravessada por tensões entre valorização da autonomia e insatisfação com mudanças corporais. Relatou preocupações com o peso, a forma do corpo e a percepção social da maternidade, além de sentimentos ambivalentes entre realização pessoal, expectativas sociais e diminuição da liberdade individual. O apoio familiar e a estabilidade financeira contribuíram para reduzir a ansiedade, mas não eliminaram a pressão percebida para atender simultaneamente às demandas maternas e profissionais. A segunda participante, mãe solo, branca, de classe média alta, apresentou relato marcado por sofrimento emocional, ansiedade e desafios de identidade. A gestação indesejada foi acompanhada de sentimentos de inadequação e negação inicial da maternidade. Relatou experiências de violência simbólica no atendimento obstétrico, sensação de invisibilidade em suas escolhas e frustração diante das limitações do sistema de saúde. A percepção de perda da identidade feminina e da autonomia corporal evidenciou a sobrecarga emocional de uma maternidade solitária, mesmo em contexto de acesso a recursos financeiros. Estratégias de enfrentamento incluíram reflexão sobre redefinição de papéis e estabelecimento de redes de apoio alternativas, mostrando resiliência e tentativa de ressignificação da experiência. A terceira participante, gestante negra de pele clara, solteira e moradora da periferia, apresentou uma experiência de maternidade marcada pelo desejo, ressignificação e construção ativa de autonomia. Apesar de vulnerabilidades socioeconômicas e territoriais, contou com apoio materno e acompanhamento próximo da equipe de saúde da ESF, fatores cruciais para sua confiança e preparação para o parto normal. Demonstrou orgulho, esperança e força na escolha de maternar sozinha, reinterpretando a maternidade como espaço de potência pessoal e construção de identidade. Relatou participação em grupos de gestantes, aprendizado sobre cuidados neonatais e estabelecimento de estratégias para lidar com estigmas sociais, fortalecendo vínculos afetivos e sentido de pertencimento à comunidade. Esses relatos demonstram que a maternidade não é homogênea, mas atravessada por contextos sociais e afetivos que influenciam a percepção e vivência do corpo materno seja como território de estigmas e inseguranças, seja como espaço de potência e transformação. Destaca-se ainda que apoio social e institucional, humanização da assistência em saúde e superação de julgamentos sociais são determinantes na experiência gestacional. Conclui-se que as experiências analisadas evidenciam a centralidade de fatores sociais, emocionais e territoriais na forma como cada mulher vivencia a gravidez e a maternidade. Ao valorizar essas vivências, o estudo reforça que a maternidade é múltipla e situada, apontando para a importância de práticas sociais e de saúde que acolham a diversidade dessas trajetórias.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

Corpo, Maternidade e Interseccionalidade: Vivências Gestacionais em Contexto Urbano Fronteiriço no Sul do Brasil. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 2, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122106. Acesso em: 27 maio. 2026.