DA TRANSFORMAÇÃO IMAGÉTICA DO DIABO: SÉCULO XIX E XX

Autores

  • Luisa Carnet da Silva
  • Tiago dos Santos Rodrigues

Palavras-chave:

Diabo, Figura, Secularização

Resumo

A representação imagética do Diabo passou por diversas transformações ao longo da história das civilizações de tradição cristã, desde, por exemplo, o século XI até o século XIX, quando, então, começa a adquirir uma personificação ainda mais humanizada. Este trabalho tem como objetivo expor as representações da figura do Diabo ao decorrer dos séculos e analisar, especialmente, como essa figura passou a ser utilizada e representada a partir do século XIX. Uma das hipóteses que são levantadas para essa humanização do Diabo, principalmente nos últimos séculos da Modernidade, seria, por um lado, o Niilismo, que promoveu uma perda dos valores tradicionais, e, por outro lado, a secularização, ou seja, a imagem do Diabo também teria passado por um processo de secularização, ele deixa de ter um carácter religioso e fantástico e passa a assumir aspectos cada vez mais mundanos. Esta pesquisa é de caráter exploratório e irá proceder por meio de levantamento bibliográfico. Antes de abordar a figura do Diabo a partir do século XIX, faz-se necessário um breve histórico da representação imagética do grande Opositor de Deus. A partir do século XI, Satã assume uma representação híbrida, sendo humano e besta simultaneamente, o porte reto e a capacidade de se mover em duas pernas revelam a humanidade, enquanto as patas arqueadas mostram o lado animalesco. No século XIII, intensificam-se as características e hibridismo, agora com chifres e asas; no século XIV, mostra-se ainda mais monstruoso e é também usado como figura de riso como na fábula Milagre de Teófilo. Já a partir do século XV, o Diabo passa a ser usado como forma de controle social pela Igreja, com detalhes sórdidos e assustadores. Mas no século XIX, a representação imagética do Diabo passa por uma transformação significativa, ele começa a receber traços românticos, um exemplo é a pintura Lúcifer de Franz Von Stuck, de 1890, representado como Estrela da Manhã, envolto pela escuridão. Ele é de aparência jovem e forte, pensativo observando atentamente a humanidade para colocá-la à prova. Outra representação neste século é o quadro Anjo Caído, de Alexander Cabanel, de 1847, sendo mostrado novamente como um homem jovem bonito, mas revoltado. Ainda, a obra Caim, de George Gordon Byron, transforma o Diabo em símbolo da revolta contra um poder tirânico e opressor. Assim, a partir do século XIX, o Diabo passa a ser ressignificado: deixa de ser apenas o símbolo do mal absoluto (apresentado pela Igreja) e se aproxima de representações mais humanas, sedutoras, trágicas e até contestadoras. Isso se deveria ao processo de racionalização, nas palavras de Max Weber, um desencantamento do mundo, que trouxe uma nova concepção ética e moral baseada na razão, permitindo ao sujeito buscar novas formas de explicações e representações que lhe parecessem mais adequadas. Com isso, no século XX, o Diabo apresenta-se como uma figura secularizada, apropriada e explorada pela indústria cultural como entretenimento da sociedade contemporânea. Ele passa a ser utilizado em filmes, séries, histórias em quadrinhos, músicas, propagandas publicitárias e até videogames, tornando-se um personagem multifacetado, capaz de entreter, provocar medo, fascínio ou até riso. Os principais motivos para essa secularização gradativa são: o surgimento do Renascimento nos anos finais da Idade Média, a Reforma Protestante de Lutero, o surgimento do trabalhador assalariado e livre na produção industrial e o nascimento do pensamento científico moderno, fatores que marcam um novo estilo de pensamento na vida da sociedade europeia, afastando-a dos valores tradicionais impostos pela Igreja ao longo dos séculos. Desse modo, a figura que durante séculos fora usada para colocar medo e aterrorizar a sociedade medieval e renascentista passa, na Modernidade, a ser consumida como mercadoria simbólica no mundo capitalista, transformando-se em um produto cultural, adaptado às demandas do mercado.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

DA TRANSFORMAÇÃO IMAGÉTICA DO DIABO: SÉCULO XIX E XX. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 2, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121557. Acesso em: 14 maio. 2026.