As Relações Diplomáticas Entre Alemanha e Brasil Durante o Estado Novo (1937-1942)

Autores

  • Juan Prado
  • Angelo Santos Alberti
  • Rafael Balardim

Palavras-chave:

Alemanha, Brasil, Relações, Exteriores, Governo, Vargas, III, Reich

Resumo

As relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha durante o Estado Novo (19371942) configuram-se como um dos episódios mais complexos da política externa brasileira no século XX, atravessadas por uma dinâmica de aproximações econômicas, tensões políticas e reconfigurações estratégicas. Inseridos em um contexto de consolidação de regimes autoritários, o de Getúlio Vargas, no Brasil, e o de Adolf Hitler, na Alemanha, ambos os governos buscaram explorar interesses convergentes, sobretudo na esfera comercial, ainda que divergências ideológicas e pressões externas acabassem por conduzir ao rompimento definitivo em 1942. Nos primeiros anos da relação, prevaleceu um ambiente de intensa cooperação econômica. O Brasil ascendeu ao posto de principal fornecedor de matérias-primas para o mercado alemão, consolidando o comércio de marcos compensados como mecanismo central dessa aproximação. Tratava-se de uma relação de dependência mútua: enquanto a Alemanha necessitava de insumos para sustentar sua acelerada industrialização, o Brasil se beneficiava da tecnologia e dos produtos manufaturados alemães, ao mesmo tempo em que Vargas utilizava essa parceria para diversificar vínculos externos e reduzir a tradicional dependência em relação a Estados Unidos e Reino Unido. Foi nesse quadro que emergiu a noção de equidistância pragmática, pela qual o governo brasileiro buscava extrair vantagens de ambos os pólos de poder em disputa. Entretanto, o jogo de aproximações logo encontrou limites. A crescente influência nazista sobre comunidades germânicas no Brasil e a atuação do Partido Nazista local desencadearam medidas repressivas por parte do governo Vargas, culminando na proibição da NSDAP em território nacional. O episódio da intentona integralista de 1938, liderada por simpatizantes do regime de Hitler, constituiu um ponto alto de tensão. A repressão violenta do levante e a hostilidade subsequente entre as diplomacias resultaram na declaração de persona non grata aos embaixadores de ambos os países, evidenciando o desgaste das relações políticas, ainda que o comércio não tenha sido imediatamente interrompido. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, a equidistância pragmática revelou-se cada vez mais insustentável. Embora Vargas tenha inicialmente mantido postura de neutralidade, buscando preservar margem de manobra, as pressões das potências aliadas (em especial dos Estados Unidos) tornaram-se crescentes. A proposta norte-americana de financiar a construção de uma usina siderúrgica no Brasil e o bloqueio naval britânico, que inviabilizou as trocas marítimas com a Alemanha, gradualmente deslocaram o eixo da política externa brasileira. Mesmo diante de tentativas alemãs de manter canais de negociação e de acenar com promessas para o pós-guerra, a conjuntura global impôs novos alinhamentos. O rompimento formal em 1942, com a declaração de guerra do Brasil contra a Alemanha, não pode ser compreendido apenas como resultado de afinidades ou antagonismos ideológicos. Antes, decorreu da convergência de fatores externos: a escalada da guerra, a supremacia naval britânica, a ofensiva diplomática dos Estados Unidos, que reconfiguraram as opções de Vargas no cenário internacional. Mais do que uma simples deterioração bilateral, o episódio ilustra a habilidade do governo brasileiro em utilizar o contexto da crise global como instrumento de barganha, garantindo vantagens econômicas e estratégicas em um momento decisivo de transformação da ordem mundial. Assim, ao examinar o percurso que vai da cooperação econômica inicial ao rompimento definitivo, torna-se possível observar como a política externa brasileira, mesmo sob um regime autoritário, manteve-se marcada por pragmatismo e cálculo estratégico. A trajetória das relações BrasilAlemanha no período evidencia que, embora os dois regimes compartilhassem certos elementos de autoritarismo, o destino da diplomacia não foi selado pelas afinidades internas, mas pela inserção do Brasil em um tabuleiro internacional em rápida mutação. Nesse sentido, o estudo desse caso permite compreender de forma mais ampla como as escolhas de Vargas refletiram não apenas interesses nacionais imediatos, mas também a necessidade de reposicionar o Brasil em meio às grandes disputas do século XX.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

As Relações Diplomáticas Entre Alemanha e Brasil Durante o Estado Novo (1937-1942). Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 2, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121554. Acesso em: 21 maio. 2026.