Esculpir o Invisível: a Maternidade em Estado Bruto na Obra Sensorial a Mente da Mãe
Palavras-chave:
Extensão, universitária, Sobrecarga, materna, Imersão, sensorialResumo
A instalação sensorial A Mente da Mãe nasceu como desdobramento estético e político do curso de extensão Codinome Maternar: Dialogando Espaços e Visibilizando Contextos, realizado na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) entre maio e junho de 2025, e foi apresentada no 43º Seminário de Extensão Universitária da Região Sul (SEURS), em Lages-SC, organizado pela UDESC. A proposta emerge da necessidade de evidenciar a maternidade em sua complexidade, atravessada por sobrecarga, silenciamentos e contradições, sobretudo dentro das universidades, onde os corpos maternos seguem invisibilizados diante de prazos, relatórios e metas produtivistas. Seguindo uma metodologia qualitativa, a estrutura é Inspirada em artistas como Joseph Cornell, Betye Saar, Rosana Paulino e Tania Font, e as discussões emergentes de pensadoras como Conceição Evaristo (2009), Silvia Federici (2019) e Donna Haraway (1995). A obra convida o público a habitar sensorialmente a experiência materna, em vez de apenas observá-la. Estruturada em formato de caixa retangular fechada, de 2m de altura por 1,20m de largura e profundidade, a instalação permite a entrada individual por uma abertura coberta por lona preta, remetendo ao isolamento e confinamento materno. No interior, um ambiente predominantemente escuro e iluminado por luz amarela suave acolhe o/a visitante, criando uma atmosfera introspectiva e melancólica. Nas paredes, encontram-se fotografias do cotidiano de mulheres que maternam, e frases extraídas de relatos coletados durante o curso de extensão, como me sinto sobrecarregada, universidade não é lugar de criança e a universidade não se importa se meu filho fica doente. A ambiência sonora, elemento central da obra, é composta por uma sobreposição de áudios cotidianos: choros de bebê, vozes infantis chamando mãe repetidamente, máquina de lavar centrifugando, panela de pressão apitando, respirações ofegantes, digitação de teclas de computador e choros de cansaço. O resultado é um caos sonoro que materializa a sobrecarga mental e sensorial da maternidade, marcada por repetição e exaustão. Os materiais utilizados carregam simbolismo: a lona remete ao improviso e à tentativa de proteção, a estrutura em PVC evoca as constantes remontagens da vida materna, as fotos fixadas com fita isolante aludem aos remendos da autoestima e da confiança, e o tapete infantil, com marcas de uso, traz a contradição entre o afeto e o desgaste. Durante as exposições, a obra provocou impactos profundos e diversos. Muitos visitantes relataram forte emoção, identificando-se com o colapso representado pela instalação; mães choraram durante a experiência, homens relataram culpa e empatia, e algumas pessoas expressaram revolta diante da violência simbólica e institucional contra mulheres que maternam. Os relatos partem da premissa de que ser mãe é viver em constante sobrecarga, imposta pelas negligências do patriarcado e de normas institucionais que não flexibilizam a rotina acadêmica nem reconhecem o cuidado como parte legítima da vida universitária. A instalação foi reconhecida como potente estratégia extensionista e como recurso de denúncia e sensibilização, capaz de ser adaptada a outras temáticas de silenciamento social, como maternidades atípicas, racismo, LGBTQIAPN+fobia e saúde mental. Esculpir o invisível, neste caso, é transformar dor em matéria sensível, deslocando a reflexão acadêmica da teoria para o corpo, da estatística para o afeto. A Mente da Mãe evidencia que a escuta também pode ser método e que a arte, em diálogo com a extensão universitária, constitui ferramenta formativa, política e transformadora, convocando a universidade a reconhecer e acolher a maternagem como parte essencial da experiência acadêmica.Downloads
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Publicado
2025-10-26
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Esculpir o Invisível: a Maternidade em Estado Bruto na Obra Sensorial a Mente da Mãe. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121015. Acesso em: 16 abr. 2026.