Formações em Saúde Coletiva: Construindo Letramento Racial com Equipes Multiprofissionais do Sus

Autores

  • Diego de Matos Noronha
  • Laisa Escobar Sitja
  • Ariadine Rodrigues Barbosa
  • Nathalie Yelena Plucinski Cardoso Ribas
  • Helter Luiz da Rosa Oliveira
  • Susane Graup

Palavras-chave:

Letramento, Racial, Atenção, Primária, Saúde, Equipe, Multiprofissional

Resumo

A discriminação racial configura-se como uma problemática estrutural que atravessa toda a sociedade brasileira. Ela não se restringe somente à população negra e, dessa forma, exige a conscientização de todos, inclusive da população branca, quanto à necessidade de uma postura ativa no combate ao racismo e de respeito efetivo à diversidade. No campo da saúde, embora os serviços públicos frequentemente reproduzem desigualdades históricas e estruturais, também se constituem como espaços de contestação e transformação social, capazes de promover práticas mais inclusivas e democráticas. Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde (APS) figura como campo estratégico para ações de letramento racial, considerando que aproximadamente 80% dos usuários que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) se autodeclaram negros, o que reforça a necessidade de que os profissionais compreendam a complexidade das relações étnico-raciais e seus impactos sobre o cuidado. Entre os diversos atores que compõem as Estratégias de Saúde da Família (ESFs), destaca-se a relevância da equipe multiprofissional, formada por agentes comunitários, técnicos e enfermeiros, médicos, nutricionistas, entre outros. Essa composição plural amplia as possibilidades de cuidado ao integrar diferentes saberes e práticas em benefício da população. As atividades realizadas por esses profissionais, como visitas domiciliares, consultas, grupos educativos, orientações e intervenções comunitárias, permitem conhecer em profundidade a realidade social, cultural e econômica dos usuários, além de identificar vulnerabilidades, potencialidades e formas de organização social. Essa aproximação cotidiana coloca os trabalhadores da saúde em posição privilegiada para compreender hábitos de vida, relações familiares e condições de moradia, bem como, para articular estratégias conjuntas de cuidado. Dessa forma, a equipe multiprofissional se afirma não apenas como trabalhadores do cuidado, mas como agente educador e transformador, que atua permanentemente no processo de construção de saúde e cidadania nos territórios. Com base nessas informações, o objetivo deste trabalho foi relatar a experiência de capacitações voltadas a aspectos socioculturais na APS, destinadas às equipes multiprofissionais das ESFs de um município da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Trata-se de um estudo descritivo, com abordagem qualitativa, na modalidade relato de experiência, desenvolvido entre 2024/2 e 2025/1. As atividades ocorreram no Núcleo Municipal de Educação em Saúde Coletiva (NUMESC), em formato presencial, totalizando 40h. As capacitações foram conduzidas por um profissional especialista em História e Cultura Africana, Afro-Brasileira e Indígena e residentes do Programa de Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Pampa, o que garantiu articulação entre conhecimentos técnicos, acadêmicos e comunitários. Participaram 224 profissionais da rede, sendo 102 agentes comunitários, 51 técnicos de enfermagem, 34 enfermeiros, 24 médicos e 13 nutricionistas, atuantes nas 21 ESFs do município, o que demonstra o caráter abrangente da proposta. As temáticas contemplaram dimensões centrais da vida social, tais como raça, cor, colorismo, gênero e classe, partindo de referenciais já consolidados na literatura, como acolhimento, educação permanente em saúde e racismo estrutural. A partir dessas bases, as discussões avançaram para reflexões sobre o imaginário social, a construção histórica do lugar ocupado pelo negro na sociedade brasileira e os impactos dessas representações sobre as práticas de saúde. Também foi enfatizada a relevância das religiões de matriz africana no processo de cuidado, considerando seu reconhecimento oficial como Prática Integrativa e Complementar em Saúde (PICS) desde 2023. Durante a formação, houve espaços de diálogo para que os profissionais compartilhassem dúvidas e experiências relacionadas ao acolhimento nos territórios, especialmente quanto à aplicação correta do quesito raça/cor nos processos de cadastramento. Essa troca foi fundamental para evidenciar desafios cotidianos e estimular práticas mais humanizadas e conscientes. Como resultados, a capacitação ampliou a compreensão das equipes sobre a importância de sua atuação integrada na diminuição das desigualdades sociais e raciais, reforçando a necessidade de manter canais de comunicação abertos com a comunidade. Além disso, promoveu mudanças significativas na percepção dos profissionais acerca do lugar social da população negra, do reconhecimento de seus direitos e da compreensão sobre as formas de racismo estrutural e institucional presentes no SUS. Conclui-se que iniciativas formativas como esta fortalecem o papel da equipe multiprofissional como protagonista de processos de transformação social, fomentando o letramento racial, qualificando o atendimento e contribuindo para a construção de um sistema mais inclusivo, equitativo e comprometido com a cidadania.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Formações em Saúde Coletiva: Construindo Letramento Racial com Equipes Multiprofissionais do Sus. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120907. Acesso em: 15 maio. 2026.