A PAISAGEM DO FEUDALISMO: UM ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIOESPACIAL ATRAVÉS DE UMA MAQUETE
Palavras-chave:
Organização, Feudal, Uso, Solo, Sociedade, RuralResumo
A representação tridimensional de um feudo da Alta Idade Média oferece uma plataforma de análise essencial para a compreensão das formas de organização espacial pré-capitalistas, marcadas pela ruralização e pela descentralização do poder. No âmbito da disciplina Formação Urbana no Mundo Contemporâneo, do curso Técnico em Meio Ambiente do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), campus Bagé, a construção desta maquete visou desconstruir a noção de cidade como única forma de assentamento complexo, explorando um sistema socioecológico onde a paisagem, o uso do solo e a estrutura social estavam intrinsecamente interligados. O feudo é apresentado como um microcosmo de uma economia de subsistência, de baixa intensidade energética, cuja resiliência e sustentabilidade derivavam de constrangimentos tecnológicos e sociais, e não de uma consciência ecológica deliberada. Este estudo prático permite aos discentes examinar a fusão quase completa entre espaço de moradia, espaço de produção e ambiente natural, estabelecendo uma base comparativa fundamental para entender o posterior processo de renascimento urbano e os impactos ambientais da concentração populacional. O processo construtivo foi precedido por uma investigação sobre a estrutura do senhorio feudal, focando na divisão tripartite das terras e na hierarquia espacial. A seleção de materiais buscou refletir a rusticidade do período, combinando elementos processados e naturalistas. O castelo, símbolo do poder senhorial, foi erguido com papelão e cartolina, posicionado em um ponto topograficamente elevado da base para denotar domínio. As habitações servis foram confeccionadas com palitos de picolé, representando a simplicidade das construções camponesas. Para o terreno, utilizou-se uma mistura de tinta guache verde com erva mate para simular campos cultivados e áreas de pastagem. Um elemento hídrico, representando um rio, foi criado com tinta guache azul, atravessado por uma única ponte de palitos, simbolizando um ponto de controle e recurso vital. A montagem colaborativa focou em representar a dispersão das habitações e a dominância da paisagem agrária sobre o espaço construído, em contraste direto com modelos urbanos densos. O resultado obtido é uma maquete que materializa com eficácia a lógica espacial do sistema senhorial. A organização do espaço reflete claramente a hierarquia social: o castelo fortificado, representando o poder do senhor e o núcleo implícito do manso senhorial, domina visual e estrategicamente a paisagem. As cabanas dos servos, simples e dispersas, localizam-se nas terras baixas, correspondentes ao manso servil, onde a produção para subsistência e pagamento de tributos ocorria. O rio, os bosques simulados e as áreas de pastagem representam o manso comunal, um espaço de uso coletivo regulado pelo senhor, crucial para a obtenção de recursos complementares como lenha e caça. A esmagadora proporção da área da maquete é dedicada a terras produtivas ou naturais, em detrimento de um espaço urbano definido, visualizando de forma concreta o conceito de ruralização da sociedade medieval. A principal aprendizagem extraída foi a compreensão da paisagem como um texto que revela relações de poder e dependência de recursos naturais. A limitação do modelo reside na impossibilidade de representar dinâmicas temporais, como o sistema de rotação de culturas trienal, uma tecnologia agrícola chave para a manutenção da fertilidade do solo a longo prazo, embora sua lógica tenha sido amplamente discutida durante o processo. A interpretação dos resultados permite conectar a estrutura feudal a conceitos ambientais contemporâneos. O sistema agrário feudal, com suas práticas de pousio, representa uma forma de manejo sustentável do solo, ainda que involuntária, imposta por limitações tecnológicas e pela estrutura social, que não incentivava a superexploração. Este modelo histórico contrasta com os agrossistemas alternativos modernos, que buscam a sustentabilidade de forma consciente. Mais profundamente, o conceito de manso comunal serve como um poderoso precedente histórico para a discussão sobre a gestão de recursos de uso comum, ou a Tragédia dos Comuns. O feudo demonstra um sistema onde os recursos compartilhados eram geridos por meio de regras sociais rígidas e uma autoridade centralizada (o senhor), evitando o esgotamento. Para o futuro técnico em meio ambiente, esta maquete se torna um ponto de partida para analisar os arcabouços sociopolíticos necessários para a governança sustentável de bens comuns globais, como a atmosfera e os oceanos, evidenciando como a organização espacial histórica pode iluminar desafios ambientais do presente.Downloads
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Publicado
2025-10-24
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
A PAISAGEM DO FEUDALISMO: UM ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIOESPACIAL ATRAVÉS DE UMA MAQUETE . Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120856. Acesso em: 14 maio. 2026.