A Corporação: Uma Análise Fílmica Baseada em Reflexões Sociológicas.

Autores

  • Sinara Cristiane da Silva Urach
  • Igor Medeiros

Palavras-chave:

Corporativismo, responsabilidade, estatal, vulnerabilidade, ambiental

Resumo

O presente trabalho acadêmico apresenta uma análise fílmica do documentário A Corporação (The Corporation, 2003), dirigido por Mark Achbar e Jennifer Abbott. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do componente curricular Sociologia Organizacional, parte do Curso de Administração Pública na modalidade a distância da Universidade Federal do Pampa Campus Santana do Livramento e Universidade Aberta do Brasil. O documentário foi utilizado como ferramenta para reflexão sobre as dinâmicas organizacionais contemporâneas e as relações entre poder econômico, estruturas jurídicas e impactos socioambientais, permitindo uma leitura ampliada das tensões entre racionalidade econômica e responsabilidade social. A produção fílmica investiga a ascensão das corporações como entidades jurídicas com status equivalente ao de pessoas físicas, revelando seu impacto na sociedade, na política e no meio ambiente. Por meio de entrevistas com executivos, estudiosos, ativistas e jornalistas, entre outros, o documentário propõe uma avaliação comportamental das corporações, sugerindo que muitas delas agem como psicopatas institucionais. As falas e as narrativas visuais destacam práticas como o greenwashing estratégia enganosa usada por corporações para manter uma imagem ambiental positiva sem mudanças reais e o financiamento pelas corporações de pesquisas científicas tendenciosas e ditas em prol do meio ambiente. Esses elementos exemplificam algumas limitações da atuação estatal diante da complexidade e do poder das corporações, evidenciando a vulnerabilidade ambiental como produto direto da ação corporativa em contextos de regulação frágil ou conivente. No contexto com o Brasil, a lógica corporativa se concretiza com a sanção do Projeto de Lei nº 2.159/2021, conhecido por ambientalistas como PL da Devastação. O texto foi aprovado com vetos presidenciais, evidenciando que o próprio governo reconheceu fragilidades na proposta original do projeto de lei, no qual a bancada ruralista foi uma das principais articuladoras da proposta. Um dos dispositivos mantidos é a criação da Licença Ambiental Especial (LAE), destinada a promover celeridade nos processos de licenças ambientais para empreendimentos considerados estratégicos pelo governo federal, como a construção de rodovias e ações de mineração. Dessa forma, ao transferir responsabilidades técnicas para as corporações é possível afirmar que a PL da Devastação representa um risco de enfraquecimento de órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Entre os interessados, destacam-se os grandes empresários que há anos pressionam por menos exigências ambientais que facilitarão os interesses corporativos, reduzindo custos e prazos para implantação de projetos que impactam de forma negativa o meio ambiente. O agronegócio, por exemplo, será diretamente beneficiado, já que o projeto de lei flexibiliza o licenciamento para diversas atividades agropecuárias. Outro setor favorecido é o da mineração, incluindo o garimpo, que poderá expandir suas atividades em áreas sensíveis como a Amazônia e os territórios indígenas. A análise do documentário aponta que a vulnerabilidade ambiental não é apenas resultado da omissão estatal, mas também da submissão ativa aos interesses corporativos, transformando o Estado em instrumento de legitimação de práticas destrutivas. Diante desse cenário, são discutidas as limitações das organizações públicas e dos governos em implementar políticas regulatórias eficazes, seja pela dependência de financiamento privado ou pela pressão por competitividade econômica em escala global. Desse modo, a partir das categorias da Sociologia Econômica, as corporações são interpretadas como atores sociais hegemônicos, cujas ações moldam não apenas mercados, mas também legislações, condutas sociais e subjetividades. Com base nas reflexões construídas é possível inferir que a configuração atual das corporações exige uma revalorização da função social das organizações e o fortalecimento de políticas públicas voltadas à justiça socioambiental. Para isso, é necessário que o poder público adote práticas regulatórias mais rígidas e independentes que possam estabelecer critérios mais coesos para avaliação dos impactos ambientais. O desafio central reside na construção de mecanismos institucionais capazes de enfrentar os excessos corporativos sem comprometer o desenvolvimento econômico tarefa que exige governança integrada, participação ativa da sociedade civil e redefinição da função social das organizações na sociedade. Aproximar fundamentos sociológicos dos debates contemporâneos sobre corporativismo, poder e sustentabilidade é um fator relevante que contribui para a formação de uma consciência crítica capaz de questionar as estruturas normativas que sustentam a atuação das organizações privadas na sociedade atual.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

A Corporação: Uma Análise Fílmica Baseada em Reflexões Sociológicas. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120642. Acesso em: 14 maio. 2026.