Cultura Corporal, Autoritarismo e Resistência: Diálogos Entre Jogos Vorazes e a Ditadura Militar no Brasil

Autores

  • Cindy Allanis Schneider dos Santos
  • Luis Mikael dos Santos Santander
  • Tatiane Motta Da Costa E Silva
  • Diego de Matos Noronha

Palavras-chave:

Cultura, Corporal, Ditadura, Militar, Educação, Física

Resumo

Este trabalho surge da proposta pedagógica do componente curricular de Filosofia e História da Educação do Curso de Licenciatura em Educação Física, buscando articular literatura, cinema e cultura corporal como recursos para fomentar reflexões críticas sobre a sociedade e seus processos históricos. A trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins, e suas adaptações cinematográficas foram analisadas como disparadores pedagógicos capazes de aproximar o universo distópico de Panem das experiências autoritárias vividas no Brasil durante a Ditadura Militar (1964-1985), período caracterizado pela censura, pela repressão política, pela vigilância e pela propaganda ideológica. O objetivo deste trabalho é evidenciar a análise do artefato cultural como possibilidade de ensino na Educação Física. A pesquisa, de caráter qualitativo e bibliográfico, envolveu a análise das narrativas literárias e audiovisuais em diálogo com documentos históricos e referenciais teóricos que discutem poder, corpo e educação. Identificou-se que a Capital de Panem mantém sua hegemonia por meio do medo, da espetacularização da violência e do controle dos corpos, sobretudo através dos chamados Jogos Vorazes, competição televisionada em que jovens de 12 a 18 anos são forçados a lutar até a morte diante de toda a população. Esse espetáculo midiático encontra paralelos com a lógica do esporte espetáculo e com práticas de manipulação corporal que foram mobilizadas também pelo regime militar brasileiro, que, enquanto reprimia manifestações políticas e culturais, estimulava eventos de massa e símbolos nacionalistas, como o lema Brasil: ame-o ou deixe-o, em uma tentativa de naturalizar a ordem vigente. Nesse contexto, nos livros e mídias da trilogia, destaca-se o Distrito 2, onde jovens são submetidos a uma preparação física intensa e ilegal, voltada não apenas para a competição nos Jogos, mas também para a formação de futuros pacificadores, espécie de exército a serviço da Capital. Tal conivência da Capital revela como o treinamento corporal pode ser instrumentalizado para sustentar estruturas de dominação, remetendo à militarização e à disciplina física incentivadas durante a ditadura brasileira, quando práticas esportivas e escolares eram atravessadas pela ideologia de ordem, produtividade e controle social. Durante os anos de regime, o esporte de alto rendimento foi utilizado como vitrine internacional, com destaque para o incentivo à seleção de futebol e para a exaltação de medalhas olímpicas como símbolos de progresso nacional, enquanto manifestações populares, sindicatos e movimentos estudantis eram silenciados por meio da censura e da violência policial. Esse duplo movimento, repressão da crítica e valorização de corpos disciplinados e produtivos, encontra ecos na sociedade de Panem, onde o espetáculo dos Jogos convive com a miséria e a exploração da maioria da população. A análise evidencia que a espetacularização da violência em Panem, transmitida como entretenimento, dialoga com a censura e com a manipulação dos meios de comunicação no Brasil ditatorial, que buscavam moldar a opinião pública e deslegitimar movimentos de contestação. Assim como os jornais, músicas e produções artísticas foram censurados por não se alinharem ao discurso oficial, em Panem qualquer tentativa de resistência é severamente punida para manter o controle. Em contrapartida, a figura de Katniss Everdeen, simbolizada pelo tordo, torna-se referência de resistência e esperança, ecoando o papel de movimentos estudantis, artísticos e jornalísticos que, mesmo sob repressão, buscaram denunciar violações e afirmar valores democráticos. O gesto de Katniss ao desafiar a lógica dos Jogos pode ser comparado às ações coletivas de estudantes e artistas no Brasil, que utilizavam o corpo, a arte e a organização popular como formas de questionar a ordem autoritária. Esses elementos demonstram como a narrativa distópica pode ser incorporada ao ensino da Educação Física como estratégia pedagógica inovadora, permitindo discutir a cultura corporal em suas dimensões políticas e históricas, questionando a instrumentalização do corpo e o uso da prática física como mecanismo de poder. Ao relacionar Panem e o período da ditadura, os estudantes são convidados a compreender que práticas corporais nunca são neutras, podendo ser apropriadas tanto para o fortalecimento da democracia quanto para a legitimação de regimes autoritários. Tal reflexão fortalece o papel do componente curricular de Filosofia e História da Educação, ao proporcionar uma compreensão ampliada da cultura corporal, indo além do desempenho técnico e reconhecendo o corpo como espaço de disputa simbólica e social. Conclui-se que o uso de narrativas ficcionais em componentes curriculares constitui um caminho potente para experiências formativas, fortalecendo a capacidade da Educação Física de contribuir para a formação de sujeitos reflexivos, engajados e capazes de compreender as inter-relações entre corpo, política e sociedade.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Cultura Corporal, Autoritarismo e Resistência: Diálogos Entre Jogos Vorazes e a Ditadura Militar no Brasil. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120529. Acesso em: 15 maio. 2026.