Do Galpão a Sala de Aula: Diálogos Entre Tradição e Ciência
Palavras-chave:
Tradição, Ciência, SustentabilidadeResumo
O presente trabalho discute a relação entre tradição e ciência a partir do contexto cultural, buscando compreender como práticas tradicionais podem dialogar com o ambiente acadêmico e contribuir para uma formação crítica, sustentável e culturalmente enraizada. A cultura, antes vista como distinta da ciência, vem sendo ressignificada como espaço de complementaridade. No Rio Grande do Sul, o patrimônio cultural material e imaterial, representado por ritos, danças, hábitos cotidianos, constitui um legado que fortalece a identidade regional e se revela como recurso pedagógico na universidade. Nesse sentido, o Movimento Tradicionalista Gaúcho, exerce papel fundamental na preservação e promoção das tradições, aproximando galpão e sala de aula. Assim, surge a questão norteadora: como a tradição gaúcha pode dialogar com a ciência, contribuindo para a formação cidadã e sustentável dos estudantes? Entre os pontos de interseção, destaca-se a educação ambiental, presente em práticas como o aproveitamento integral dos recursos, o respeito ao ciclo da natureza e a valorização de materiais reaproveitados, visíveis no artesanato, nas lidas campeiras. Outro exemplo é o chimarrão, que vai além de um hábito social, simbolizando coletividade, hospitalidade e vínculo com a natureza por estar diretamente ligado à erva-mate, recurso nativo da região. Ao ser incorporado em práticas pedagógicas, conecta identidade cultural e investigação científica, unindo áreas como Biologia e Engenharia Florestal. Contudo, muitos estudantes ainda vivenciam pouco de suas raízes culturais na universidade, o que pode gerar distanciamento entre conhecimento científico e vida social. O trabalho foi desenvolvido na Universidade Federal do Pampa, com metodologia qualitativa e interdisciplinar. Participaram cerca de 75 estudantes dos cursos de Engenharia Florestal e Ciências Biológicas. O formato privilegiou palestras dialogadas, com momentos de exposição, exemplos práticos e espaço para debates. A primeira atividade, Educação Ambiental e Cultura: Conectando Saberes na Engenharia Florestal(abril de 2025), promoveu reflexão sobre práticas tradicionalistas de sustentabilidade, como hortas comunitárias, artesanato reciclável e plantio de árvores nativas, relacionando-as ao manejo ambiental e à recuperação de áreas degradadas. A segunda, Chimarrão e Química: Uma Infusão de Tradição e Ciência(maio de 2025), analisou o chimarrão como recurso didático para explorar conceitos químicos, físico-químicos e biológicos, com destaque para compostos como cafeína e saponinas, além da influência dos materiais de cuias e bombas no processo de infusão. A fundamentação teórica dialogou com autores da Educação Ambiental, como Jacobi(2003) e Loureiro(2012), que defendem práticas educativas contextualizadas e críticas, e com estudos sobre cultura regional (Oliven, 2006; Savaris, 2017), que ressaltam a relevância da identidade cultural na formação social e acadêmica. Nesse sentido, as atividades mostraram que práticas tradicionais gaúchas já antecipam debates contemporâneos sobre sustentabilidade, valorizando o cuidar da terra e o fortalecimento.A erva-mate, além de símbolo social no chimarrão, possui relevância econômica e científica, sendo estudada quanto a bioativos e manejo sustentável. Ao chegar à universidade, torna-se elo entre tradição e ciência. O projeto mostrou-se eficaz ao valorizar a cultura como recurso pedagógico e fortalecer a interdisciplinaridade. O engajamento estudantil ficou evidente pela participação ativa e pelas reflexões compartilhadas. Muitos destacaram maior pertencimento, reconhecimento de suas raízes e compreensão do papel da universidade na preservação cultural. As práticas ambientais incentivaram a responsabilidade socioambiental, evidenciando que valores tradicionais já antecipam conceitos atuais de manejo, reflorestamento e restauração. O chimarrão, por sua vez, revelou-se recurso integrador para compreender processos químicos e biológicos sem perder sua dimensão cultural. Conclui-se que a união entre tradição e ciência não deve ser vista como contradição, mas como oportunidade de enriquecer a formação acadêmica. O projeto mostrou que o galpão e a sala de aula podem se complementar, estabelecendo um espaço de diálogo que fortalece tanto a identidade cultural quanto o conhecimento científico. A experiência reafirma que o ensino universitário pode ser mais significativo quando contextualizado em práticas locais, tornando-se ferramenta de conscientização sobre sustentabilidade, pertencimento e ética profissional.Downloads
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Publicado
2025-11-03
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Do Galpão a Sala de Aula: Diálogos Entre Tradição e Ciência. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120400. Acesso em: 14 abr. 2026.