Lamento, Silêncio e Morte
Palavras-chave:
Guerra, Arte, MorteResumo
A obra Lamento, Silêncio e Morte foi concebida no âmbito da Residência Cultural da UNIPAMPA como um exercício simbólico de reflexão sobre a destruição, a ausência e o luto em contextos de guerra. A proposta visualiza a Morte não como entidade ameaçadora, mas como presença inevitável e silenciosa em paisagens devastadas. Inspirada por imagens históricas, tradições pictóricas e referências contemporâneas, a criação busca provocar no observador um estado de suspensão, contemplação e respeito diante da tragédia. A cena retratada apresenta uma figura encapuzada e imóvel a Morte em meio a ruínas fumegantes e sombras longas. A ausência de rosto e de arma (como a foice tradicional) reforça o caráter passivo da personagem: ela não ceifa, apenas observa. O uso de tons terrosos e avermelhados evoca calor, dor e memória. A paisagem ao fundo é indefinida, sem nacionalidade, sem tempo, sugerindo que o que se vê pode ser qualquer lugar onde a humanidade falhou. A construção da imagem se deu por meio de composição digital com simulação de técnica pictórica tradicional (óleo/acrílica). O objetivo foi criar textura visual e atmosfera pesada, valorizando o gesto estético e o simbolismo acima da literalidade. A figura da Morte está deslocada do centro, desfocada, para dar lugar ao ambiente ela não protagoniza a cena, mas habita seu rescaldo. O título da obra apresenta as três camadas de sentido: lamento, como reação emotiva à perda; silêncio, como vazio narrativo e sonoro após a violência; e morte, como destino comum, presente oculta que paira sobre os sobreviventes. Cada elemento foi pensado para transmitir não o horror gráfico da guerra, mas o impacto emocional que ela imprime no espaço, nos objetos e nas ausências. A proposta não pretende tomar partido político, nem se vincular a uma narrativa específica sobre o conflito na Faixa de Gaza. Ao contrário, parte dessa referência para construir uma representação simbólica universal da guerra enquanto fracasso humano. A dor aqui não tem rosto nem idioma, mas matéria, poeira e sombra. Ao produzir essa obra, enquanto discente de Engenharia Mecânica, busquei conectar saber técnico e expressão estética. O metal que se dobra em minhas esculturas é o mesmo que aparece derretido ou calcinado na imagem. A rigidez cede lugar à forma e à memória. A arte, assim, se torna linguagem possível para falar daquilo que já não pode ser dito. Ao evocar a figura da Morte em uma posição contemplativa, o trabalho se afasta da iconografia tradicional ligada à violência e ao julgamento. A escolha estética por uma figura desarmada, sem rosto e envolta em sombras sutis, oferece ao espectador um convite à introspecção. Essa Morte, mais próxima do luto do que da ação, representa o momento posterior à destruição, em que restam apenas a memória, o vazio e os rastros do colapso. Além do aspecto visual, a proposta também propõe um diálogo sensorial e simbólico com os conceitos de ruína e silêncio. As estruturas em segundo plano destruídas, fragmentadas ou consumidas pelo tempo funcionam como testemunhos imóveis de uma narrativa interrompida. Não há palavras, vozes ou sons diretos na imagem; o silêncio atua como personagem coadjuvante que sustenta a atmosfera e conduz a interpretação subjetiva. A obra também se vincula, ainda que de forma indireta, a temas ligados à engenharia e à materialidade. Ao utilizar como referência os metais retorcidos que marcam ambientes pós-destruição, há uma transposição simbólica do conhecimento técnico do curso de Engenharia Mecânica para o campo da arte visual. Essa fusão entre o domínio da matéria e da imagem reforça o aspecto interdisciplinar do projeto, rompendo barreiras entre o racional e o poético. Lamento, Silêncio e Morte também pode ser compreendida como um gesto de resistência sensível frente à normalização das imagens de guerra e violência. Em um tempo marcado pela hiperexposição de tragédias nas redes e nos jornais, a obra propõe uma outra temporalidade: a da contemplação silenciosa, da pausa e da empatia. Ela não grita, mas permanece. Ela não denuncia diretamente, mas também não se cala. Por fim, este trabalho se insere dentro de uma trajetória de busca por expressões que unam arte, memória e técnica. Ao propor uma obra que não se pretende conclusiva, mas sim evocativa, o projeto reafirma o valor da linguagem simbólica como ferramenta de elaboração coletiva do trauma e da ausência. Assim, o que poderia ser apenas uma imagem se torna espaço de diálogo com o invisível com aquilo que se foi, e com o que ainda insiste em ficar.Downloads
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Publicado
2025-11-03
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Lamento, Silêncio e Morte. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120385. Acesso em: 14 abr. 2026.