CAIXA DE IDENTIDADE: MAQUETE DO COTIDIANO MATERNO COMO LINGUAGEM ESTÉTICA E CRÍTICA

Autores

  • Thais Andressa Pereira Fusari
  • Juliana Brandão Machado

Palavras-chave:

Cotidiano, invisibilizado, Epistemologia, cuidado, Maternidade, acadêmica

Resumo

O projeto Caixa de Identidade: Maquete do Cotidiano Materno foi selecionado pela Chamada Interna nº 03/2025 Fomento à Criação Artística (PROARTE/PROEC) da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) e consiste na criação de uma instalação escultórica coletiva que busca visibilizar as experiências de mulheres que estudam, trabalham, maternam e cuidam; vivências historicamente invisibilizadas pelas instituições e pelo patriarcado. Trata-se de um gesto artístico e político que procura retirar da sombra práticas cotidianas marcadas pela sobrecarga e pela conciliação constante entre mundos: o do trabalho, da casa, da universidade e do cuidado. Inspirada nas assemblages de Joseph Cornell, nas caixas-altar de Betye Saar e nas produções de Rosana Paulino, a obra parte da materialidade dos objetos cotidianos para construir uma narrativa estética, política e afetiva. Um objeto de cuidado deixa de ser apenas funcional e passa a simbolizar camadas de tempo e sobrecarga; enfeites de cabelo evocam memórias de afeto e exaustão; o vidro expõe fragilidade; os metais registram resistência. Cada fragmento adquire potência de discurso. A metodologia qualitativa fundamenta-se em escuta, coleta de materiais e criação compartilhada, envolvendo mães, um pai, uma avó e redes de apoio. O processo legitima a multiplicidade de vozes e reafirma que a obra nasce da coletividade, não de uma autoria isolada. Cada objeto ou relato é incorporado como gesto de resistência. Dessa forma, narrativas silenciadas encontram materialidade estética, desafiando a lógica que confina a maternidade ao espaço privado. Estruturada em formato de caixa tridimensional de madeira, a instalação é composta por objetos reais (utensílios, tecidos, vidros, metais, colagens e fragmentos textuais), que carregam potências simbólicas. A técnica mistura colagem, assemblage e desenho manual, transformando o cotidiano em relicário de afetos, tensões e lutas. A caixa remete tanto ao espaço íntimo: gavetas, baús, relicários; quanto ao espaço público de exposição, abrindo fissuras no olhar do público e convidando-o a refletir sobre aquilo que normalmente se oculta na rotina. A proposta dialoga com Angela Davis (1981), Nancy Fraser (2016) e Heleieth Saffioti (1976), permitindo uma leitura ampliada da maternidade e do cuidado, não como espaço naturalizado, mas como território político, marcado por desigualdades e resistências. A instalação constitui-se como prática estética insurgente, capaz de traduzir em imagens o que a teoria denuncia em palavras. A obra está finalizada e será exposta no campus Jaguarão em outubro. Os resultados esperados da exposição vão além da estética, pois a obra busca provocar deslocamento, reconhecimento e empatia no público, transformando objetos corriqueiros em testemunhos de sobrecarga e vivência cotidiana. A escultura instala-se como espaço de denúncia e sensibilização, traduzindo em linguagem crítica aquilo que a rotina tende a naturalizar. Ao mesmo tempo, afirma a maternidade como parte legítima das narrativas sociais, científicas e artísticas, questionando as hierarquias que por muito tempo relegaram essa experiência ao silêncio ou à romantização. A instalação abre espaço para o debate sobre políticas de cuidado, redes institucionais de apoio e o direito a trajetórias acadêmicas e profissionais sem o estigma da incompatibilidade. Conclui-se que a Caixa de Identidade atua como prática extensionista e pedagógica, conectando arte, universidade e sociedade em torno da valorização das experiências do cuidado. Seu desenvolvimento no âmbito do PROARTE/PROEC evidencia o papel das políticas de fomento na produção artística crítica e situada, permitindo a emergência de vozes e estéticas que problematizam o cotidiano e reivindicam reconhecimento. O projeto também se coloca como exercício de memória coletiva, registrando, por meio da arte, histórias que dificilmente encontram espaço em arquivos oficiais. Assim, a instalação convida à escuta, à memória e à construção de epistemologias do cuidado, reafirmando que o invisível pode ser transformado em linguagem sensível, crítica e insurgente. Mais do que instalação escultórica, a Caixa de Identidade: Maquete do Cotidiano Materno constitui-se como manifesto materializado, onde o pessoal se torna político e o cuidado emerge como centro legítimo de reflexão, memória e transformação social.

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Publicado

2025-11-03

Como Citar

CAIXA DE IDENTIDADE: MAQUETE DO COTIDIANO MATERNO COMO LINGUAGEM ESTÉTICA E CRÍTICA. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120366. Acesso em: 14 abr. 2026.