Conexões quilombolas do sul: Ações e desafios contemporâneos

Autores

  • Letiane Ramos
  • Tiago Souza Brandâo
  • Marilei do Nascimento Moreira
  • Manoel Carvalho Abreu
  • Sandra Maders
  • Carla Valeria Leonini Crivellaro

Palavras-chave:

Território, ancestral, reconhecimento, resistência

Resumo

O presente trabalho apresenta uma síntese qualitativa da pesquisa de campo desenvolvida nas Comunidades Quilombola Ibicuí da Armada, localizada em SantAna do Livramento, e Rincão da Faxina, situada em Piratini, ambas no Rio Grande do Sul. O estudo teve como objetivo identificar impactos na cultura, compreender os espaços comunitários, os saberes tradicionais e as práticas educativas desenvolvidas no cotidiano, além de analisar as vulnerabilidades enfrentadas pelas comunidades diante dos desastres ambientais recentes. As fortes chuvas e enchentes ocorridas na região afetaram diretamente as condições de vida, a produção e a organização comunitária, reforçando a necessidade de um diagnóstico que revelasse tanto os desafios quanto as estratégias de resistência. A pesquisa foi conduzida por meio de uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório. Os dados foram obtidos a partir de questionários estruturados, entrevistas com lideranças locais, conversas informais e registros em diário de campo. A análise dos resultados foi organizada em quatro blocos principais: (1) conhecendo o quilombo; (2) bens culturais quilombolas; (3) necessidades emergentes; e (4) estratégias, potencialidades e perspectivas futuras. Essa estrutura buscou reconhecer as especificidades de cada comunidade e valorizar as percepções individuais e coletivas de seus integrantes. No bloco conhecendo o quilombo, ficou evidente a forte relação das comunidades com a terra, compreendida não apenas como espaço físico, mas como herança ancestral. O território é reconhecido como lugar de pertencimento, continuidade da memória coletiva e base para a resistência cultural. As falas das lideranças destacaram que viver no quilombo significa preservar a herança de antepassados, renovar diariamente práticas sociais e culturais e reafirmar a identidade quilombola. Essa dimensão territorial aparece como elemento central de coesão e luta por direitos. Em relação aos bens culturais, as comunidades ressaltaram a importância dos saberes tradicionais, como o cultivo de alimentos conforme as fases da lua, o preparo de pão assado na pedra, o plantio de sementes crioulas, os benzimentos, o uso medicinal de ervas e a produção de comidas típicas, como bolo de canela, mocotó e farinha de cachorro. Essas práticas vão além da alimentação ou da cura: representam vínculos com a ancestralidade, formas de manter a saúde coletiva e de fortalecer as relações comunitárias. Tais saberes constituem um patrimônio imaterial que precisa ser preservado e transmitido, principalmente aos jovens, que hoje buscam articular a tradição ao contexto contemporâneo, sem perder os valores herdados. O levantamento das necessidades emergentes mostrou um quadro de fragilidades estruturais que afetam a vida das comunidades. Foram apontadas a limitação no acesso a serviços de saúde, a ausência de transporte regular, a falta de políticas de formação de educadores preparados para atuar em contextos quilombolas e a inexistência de moradias adequadas frente aos impactos recorrentes de enchentes. A carência de políticas públicas voltadas ao reconhecimento territorial também foi identificada como um dos principais problemas. Sem a devida documentação legal e laudos específicos, os quilombos permanecem vulneráveis à perda de terras, à falta de assistência governamental e à invisibilidade institucional. Apesar das dificuldades, as comunidades apresentam estratégias de resistência e grande potencial de organização. A ligação com a terra, o conhecimento sobre práticas sustentáveis e a criatividade na busca de alternativas são elementos que fortalecem a continuidade cultural. Foi destacado que, mesmo em meio às adversidades, a juventude vem assumindo papel central na manutenção da identidade quilombola, ao mesmo tempo em que projeta novas formas de manter vivas as tradições. Essa presença intergeracional demonstra que a cultura não é estática, mas dinâmica e em constante reinvenção. De modo geral, a pesquisa constatou que as comunidades quilombolas estudadas reafirmam sua importância na preservação da memória afro-brasileira, mantendo suas tradições vivas e ao mesmo tempo se organizando para enfrentar os desafios contemporâneos. Essas comunidades se mostram como sujeitos ativos na busca por autonomia, na valorização cultural e na construção de estratégias de resistência.

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Publicado

2025-11-03

Como Citar

Conexões quilombolas do sul: Ações e desafios contemporâneos. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120358. Acesso em: 14 abr. 2026.