RELATO DE EXPERIÊNCIAS DA IMERSÃO AO REPERTÓRIO INDÍGENA NO BAQUE DO PAMPA

Autores

  • Anndreza Martins Laurindo
  • Luana Zambiazzi dos Santos
  • Lucia Helena Pereira Teixeira

Palavras-chave:

Práticas, vocais, coletivas, Musicalidades, indígenas, Interculturalidade

Resumo

Este trabalho é um relato de uma discente do Curso de Letras - Línguas Adicionais e colaboradora do programa de extensão Baque do Pampa: Práticas Vocais Coletivas (Curso de Música - Licenciatura), da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Neste relato serão descritas a repercussão da criação de um repertório com centralidade às temáticas indígenas no referido programa de extensão. O Baque do Pampa, fundado em 2015, tem como foco as práticas vocais coletivas e busca priorizar a inclusão, a diversidade cultural e a experimentação musical, integrando a comunidade universitária e externa, promovendo experiências coletivas de criação musical. No que se refere às questões culturais, imbricadas às educacionais, pode-se considerar esse um espaço desafiador e potencialmente inovador, pois tenta assumir o compromisso com a diversidade cultural e social com os participantes. Dessa maneira, é possível dizer que lida com os fazeres interculturais, com inclusão não apenas de repertórios diversificados, como músicas populares e tradicionais, especialmente, africanas e indígenas, mas com o estudo, junto aos/às cantores/as, dos sentidos socioculturais imbricados às práticas musicais ali performadas. Em 2024.1, o grupo passou por um processo de imersão às culturas indígenas, com introdução a cosmologias e sonoridades em sociedades de povos originários de diversos territórios geográficos. Como exemplos dessa imersão introdutória, fez parte conhecer alguns dos sentidos da paisagem sonora de uma floresta tropical, a partir de gravações etnomusicológicas, para os Kaluli, nativos de Bosavi, de Papua-Nova Guiné; procuramos mostrar a importância do cantar para os Kisêdjê, do Xingu, considerando que para essa sociedade o cantar permite que as pessoas criem e expressem certas maneiras do ser eu e, ao mesmo tempo, suas relações com o mundo e a sociedade. A importância dos gestos, movimentos do corpo ao cantar, procurou ser vivenciada por uma canção de nativos da Ilha do Estreito de Torres, na Oceania, onde gestos com o corpo dão sentido ao cantar, que não possui significado literal. Considerando o fato de que no Brasil há centenas de sociedades indígenas diferentes, com modos de vida, musicalidades e cosmologias diferentes, optamos por dinâmicas musicais que chamassem também a atenção para essa multiplicidade. Como segunda etapa, e através do grupo de WhatsApp, fomentamos que os/as cantores/as sugerissem músicas de artistas indígenas contemporâneos/as e, após votação, foram escolhidas músicas a serem performadas pelo grupo. Floresta Sagrada, dos músicos/as indígenas Owerá (Guarani) e Djuena Tikuna, foi escolhida pelo grupo. Com relação a essa música, trabalhamos alguns dos sentidos cosmológicos: a fonética, por ser língua não-materna (guarani), a interpretação tanto do corpo, pois expressar com o corpo a música, o pulsar, remete a uma conexão profunda com seu eu, ligado à natureza e ao sentir da terra; a importância do sorrir ao cantar, buscando sonoridades metálicas e que lembram os cantos das crianças e que, segundo a cosmologia mbyá-guarani, está ligado ao divino. Notamos que essa abordagem fez com que houvesse uma aceitação fluida dentre os cantores/as. Nesse mesmo período, aconteceu o desastre ambiental no Rio Grande do Sul. Comovidos e solidários com a situação, elaboramos textos líricos e com essa transversalidade com a centralidade para a temática indígena, construímos uma narrativa que, ao final do semestre, em uma apresentação os/as cantores/as pareceram satisfeitos. A inclusão de músicas indígenas, a princípio, parecia ter sido aceita. No entanto, provocou reações divergentes dentro do grupo. Alguns/mas participantes mostraram-se desafiados/as a compreender a proposta e a sua própria pertinência, desde a fase de escuta de artistas indígenas, até o momento de cantarem. Aparentemente, esses compreendiam que a escuta e performance de músicas indígenas, tanto pela questão da língua, quanto por demandar uma necessidade de compreensões sonoras para além das suas próprias, não lhes passava a sensação de proximidade. Tendo em vista os conflitos, o investimento na compreensão dos sentidos envolvidos nas musicalidades indígenas foi ainda mais realçado. Nesse processo, o Baque do Pampa parece ter lidado com enfrentamentos à colonialidade do poder e expondo o eurocentrismo, por meio desses estranhamentos estéticos. Nesse sentido, entendemos que o programa, enquanto atuante na esfera cultural, trabalha na promoção do estreitamento de relações entre universidade e sociedade em geral, lembrando a importância de que os conhecimentos de todas as sociedades são valiosos e, por meio da música e educação, podemos mediar saberes de sociedades periferizadas, como os povos originários são posicionados frequentemente. Contudo, como buscamos chamar a atenção, esse trabalho, para persistir, não pode se isentar ou deixar de enfrentar conflitos e tensões emergentes, impactos de uma sociedade cujos ideais de igualdade ainda são uma luta.

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Publicado

2024-10-16

Como Citar

RELATO DE EXPERIÊNCIAS DA IMERSÃO AO REPERTÓRIO INDÍGENA NO BAQUE DO PAMPA. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 16, 2024. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/118935. Acesso em: 17 abr. 2026.