AS FERRAMENTAS ANTROPOLÓGICAS PARA A COMPREENSÃO DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO COMO UM FENÔMENO DA SAÚDE
Palavras-chave:
violência, mulheres, antropologia, saúde, profissionalResumo
A violência de gênero contra as mulheres não é um fenômeno novo. Considerada como elemento rotineiro, costuma ser perpetrada pelos companheiros, pais, irmãos, filhos, nas mulheres, independentemente de seu meio socioeconômico e cultural. Desde a década de 1970 ela tem sido foco de mobilizações feministas. Deste esforço conjunto, obtiveram-se muitas conquistas, entre as quais destaca-se a criação da Lei 11.340/2006, a Lei Maria da Penha. Tais conquistas parecem tomar a violência de gênero contra as mulheres como um fenômeno inerentemente jurídico, esquecendo-se de que também se trata de um grave problema de saúde pública, pois é um condicionante de diversos fatores para agravos à saúde feminina, além do fato das vítimas passarem inúmeras vezes pelo sistema de saúde, antes de procurarem o sistema de justiça. Neste trabalho procuramos refletir sobre a relevância da antropologia e de suas ferramentas metodológicas para a compreensão da violência de gênero contra as mulheres como um fenômeno de interesse do campo da saúde. Para tanto, partimos da experiência oriunda da pesquisa etnográfica em andamento do Projeto Estudos da judicialização da violência de gênero e difusão de práticas alternativas numa perspectiva comparada entre Brasil e Argentina coordenado pelo Laboratório de Estudos das Violências, UFSC. Após o mapeamento inicial da rede de atendimento a mulheres vítimas de violência, nesta segunda etapa tem sido realizada uma pesquisa etnográfica junto à Delegacia Especializada no Atendimento às Mulheres. Por meio do acompanhamento cotidiano do serviço, buscamos compreender o atendimento às mulheres vítimas de violência que procuram a delegacia. São observados os atendimentos, as interações, os registros dos Boletins de Ocorrência, bem como são analisados os Inquéritos Policiais e registrados em diários de campo. Muitos estranhamentos foram enfrentados neste processo, entre eles destacam-se a perplexidade das interlocutoras frente ao fato da pesquisa não ser oriunda de uma área como Serviço Social, da equipe ser constituída por pesquisadoras da área da saúde e de estar assentada na perspectiva antropológica. Um dos ângulos desse debate centra-se no modelo biomédico assistencial hegemônico de saúde, que se caracteriza por uma abordagem clínica centrada no cuidado individual e na figura do médico. Outro estranhamento a ser destacado diz respeito a como o serviço e a própria LPM são percebidos, interpretados e utilizados pelas mulheres e seus agressores. Desta forma, podemos concluir que a perspectiva antropológica nos ensina, por um lado, o exercício da alteridade, que contribui para a compreensão das multidimensionalidades do ser humano, do que resultam maneiras diferentes de lidar com situações semelhantes como as observadas na DEAM. Por outro lado, contribui para o alargamento da concepção de saúde, ampliando-a para além dos limites das ações do modelo biomédico e, com isto de gênero um fenômeno de relevância fundamental para a saúde.Downloads
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Publicado
2020-03-30
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
AS FERRAMENTAS ANTROPOLÓGICAS PARA A COMPREENSÃO DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO COMO UM FENÔMENO DA SAÚDE. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 11, n. 2, 2020. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/101482. Acesso em: 15 maio. 2026.