OS LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA PORTUGUESA REFORÇAM OU TRANSCENDEM OS ESTEREÓTIPOS DO GÊNERO FEMININO?

Autores

  • Cássia Gonçalves
  • Fabiana Giovani

Palavras-chave:

Gênero, Livro, didático, Língua, Portuguesa, ACD

Resumo

As mudanças sociais das últimas décadas, como o aumento significativo do número de mulheres no mercado de trabalho, contribuíram para a modificação dos significados sobre o que constitui ser homem e ser mulher na sociedade em que vivemos. Se compreendermos que as identidades são construídas e significadas através da linguagem, construímos, com esta concepção, a perspectiva de que estas que não são papéis naturais, mas papéis naturalizados, construídos e reforçados socialmente (WOODWARD, 2000). Os livros didáticos, materiais frequentemente utilizados nas salas de aula brasileiras, podem ser vistos como artefatos culturais devido à carga de significados que eles têm, carregando marcas de classe, etnia, religião, gênero etc. Assim, este estudo se propôs a pesquisar como ocorrem as representações do gênero feminino em dois livros didáticos de Língua Portuguesa distintos: Português: idéias & linguagens, de 6º ano e Viva português: língua portuguesa, de 9º ano. Ambos os livros estão vinculados a uma Legislação Educacional, feita pelo MEC e foram aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático (2011), portanto circulam nas escolas brasileiras desde 2011. As concepções de autores como Woodward (2000), Bakhtin (2011), Hall (1998), Funck (1994) e Scott (1990) foram fundamentais para a compreensão desta pesquisa, que compreendeu conceitos de linguagem, cultura, identidade, gêneros do discurso, gênero etc., a qual utilizou como metodologia qualitativa de análise a Análise Crítica do Discurso, de Fairclough (2001), uma vez que este método epistemológico permite a análise dos eventos discursivos enquanto textos que, resultam, por sua vez em práticas sociais, presentes em ambas as coletâneas, direcionando nosso olhar para a prática social do discurso. Constatamos, a partir das análises, que, embora existam algumas recorrências de textos que abordem as mulheres com posições ativas ou em posição de igualdade em relação aos papeis masculinos, a maior parte das representações ainda se refere ao gênero feminino relacionando-o a papeis patriarcais tradicionais (mãe, filha, irmã, avó etc) ou a características físicas, no sentido sexual e/ou depreciativo. Assim, por mais que os preceitos éticos do PNLD (2011) assegurem ser contra a discriminação, essa pesquisa tem a intenção de demarcar que os efeitos de sentido escorregam nos usos da linguagem, até mesmo para aqueles órgãos (e sujeitos) que selecionam os livros didáticos, mesmo quando há toda uma legislação e um cuidado antes destes serem colocados em circulação nas escolas. Cabe a nós, educadoras e pesquisadoras apontar para nossos alunos que os livros didáticos, como artefatos culturais, reproduzem certos preconceitos e equívocos sociais. Cabe a nós, a criticidade e a atenção às discriminações que ocorrem, muitas vezes, dentro das escolas, das casas, das relações íntimas. Cabe a nós, como cidadãs, o compromisso social de reconstruir novos textos, novos discursos e novas práticas sociais mais igualitárias, mais democráticas e mais justas.

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Publicado

2020-02-14

Como Citar

OS LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA PORTUGUESA REFORÇAM OU TRANSCENDEM OS ESTEREÓTIPOS DO GÊNERO FEMININO?. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 4, 2020. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/66308. Acesso em: 18 abr. 2026.