Ciranda Infantil: o Reconhecimento da Maternagem Aprendido com os Movimentos Sociais.
Palavras-chave:
Educação, Campo, Permanência, estudantil, Políticas, maternagemResumo
A Educação do Campo é fruto da luta dos movimentos sociais camponeses pelo direito à terra e à educação e propõe uma perspectiva formativa emancipatória, comprometida com a transformação social, a justiça, a sustentabilidade socioambiental, o respeito à diversidade e a equidade. Inseridas nesse projeto, as Licenciaturas em Educação do Campo também assumem o desafio de transformar a própria universidade, incorporando sujeitos, saberes e demandas historicamente marginalizados. É nesse contexto que se constitui a Ciranda Infantil do curso de Educação do Campo da Unipampa Campus Dom Pedrito, inspirada nas experiências de cuidado e formação infantil construídas pelos movimentos sociais. O presente trabalho tem como objetivo analisar a constituição, o funcionamento e os aprendizados produzidos pela experiência, especialmente no que se refere à garantia do direito das mães à educação e à construção de uma universidade mais inclusiva. A pesquisa fundamenta-se na descrição e análise da experiência desenvolvida no âmbito do projeto, considerando registros, projetos e relatórios produzidos ao longo de sua trajetória, articulados à revisão bibliográfica sobre Cirandas Infantis, Educação do Campo, maternagem e permanência estudantil. A análise considera tanto o processo histórico de constituição da iniciativa quanto suas práticas pedagógicas, formas de organização, condições institucionais de funcionamento e desafios para sua consolidação. As primeiras experiências de Ciranda Infantil ocorreram com as turmas iniciais do curso, a partir da organização das estudantes mães, em 2014, mas não se consolidaram de forma permanente. A demanda, contudo, permaneceu presente e resultou, a partir de 2019, na retomada da proposta, cuja implementação foi interrompida pela pandemia, sendo efetivamente concretizada em 2022. Desde então, o projeto mantém atividades ininterruptas, atendendo aproximadamente 30 crianças ao longo do ano, com idades entre 1 e 12 anos, oriundas de diferentes contextos sociais, incluindo povos indígenas, comunidades quilombolas, agricultores e pecuaristas familiares e trabalhadores urbanos. A existência da Ciranda é particularmente relevante diante do regime de alternância pedagógica do curso, cujas atividades presenciais concentram-se em janeiro, fevereiro e julho, período coincidente com as férias escolares, dificultando às mães a conciliação entre estudos e cuidado dos filhos; o que não tem impedido seu funcionamento também ao longo do período regular. Ao longo de sua trajetória, a Ciranda passou de uma experiência sustentada por voluntariado e doações para uma iniciativa que conta também com apoio institucional por meio de editais, bolsas e aquisição de materiais pedagógicos. Recursos do PDA, do PROMATERNAR e de ações vinculadas à SECADI possibilitaram ampliar a capacidade de atendimento, adquirir materiais e, em períodos de maior demanda, contratar educadoras. O MST também contribui com a doação de alimentos destinados às crianças. As atividades desenvolvidas ultrapassam o acolhimento, envolvendo brincadeiras livres e orientadas, rodas de conversa, oficinas, atividades culturais e práticas de socialização, constituindo-se como espaço de aprendizagem, convivência, expressão e desenvolvimento infantil. A diversidade sociocultural das crianças transforma ainda a Ciranda em espaço de intercâmbio de saberes, contribuindo para a formação das próprias educadoras e para a reflexão do curso e da universidade sobre cuidado, maternagem, gênero e diversidade. Os resultados evidenciam, portanto, que a Ciranda Infantil vem cumprindo papel relevante na garantia das condições de permanência das mães estudantes, ao mesmo tempo em que se constitui como espaço formativo da Educação do Campo e como instrumento de transformação da própria universidade. Entretanto, persistem limitações importantes: dependência de editais e doações, ausência de profissionais permanentes, dificuldades de manutenção da infraestrutura e dependência da iniciativa individual de servidores para assegurar a continuidade do projeto. Tais condições revelam que o reconhecimento institucional ainda não se converteu em uma política permanente de apoio à maternagem. Conclui-se que a experiência demonstra a potência das Cirandas Infantis como estratégia de democratização do ensino superior, articulando o direito das mães à educação ao direito das crianças ao cuidado, à convivência e à aprendizagem. Ao mesmo tempo, evidencia que projetos dessa natureza não devem permanecer dependentes de iniciativas individuais e financiamentos temporários. Defende-se, assim, a institucionalização dos espaços de maternagem como parte das políticas permanentes de assistência e permanência estudantil das universidades, garantindo infraestrutura, recursos e profissionais próprios, sem perder seu caráter formativo e a participação de estudantes, bolsistas e voluntários.Downloads
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Publicado
2026-10-05
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Ciranda Infantil: o Reconhecimento da Maternagem Aprendido com os Movimentos Sociais. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 6, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123898. Acesso em: 30 out. 2026.