Fio a Fio: o Cabelo Como Símbolo de Identidade e Resistência
Palavras-chave:
identidade, cultural, padrão, estético, conscientizaçãoResumo
O presente trabalho tem como objetivo relatar um projeto de fotografia desenvolvido no programa PET História da África da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), campus São Borja. A partir dessa perspectiva, a construção dos padrões estéticos está profundamente atravessada por uma lógica eurocêntrica que estabelece hierarquias entre corpos, traços e formas de existir. Nesse processo, o cabelo, especialmente o cabelo crespo e cacheado, foi deslocado de sua dimensão cultural e identitária para ser tratado como algo a ser corrigido, disciplinado ou invisibilizado. Conforme discutido no artigo A Estética da Negritude: Construindo Autoestima e Identidade na Luta contra Padrões Eurocêntricos (RIBEIRO; PEREIRA; SANTOS, 2025), tais padrões não operam apenas na aparência, mas atuam na construção da subjetividade, afetando a autoestima e o reconhecimento social. A estética deixa de ser neutra e passa a ser compreendida como um campo político de disputa, no qual se afirma ou se negam identidades. Ademais, o estudo O que ela tem na cabeça? Um estudo sobre o cabelo como performance identitária, de Adriana Maria Penna Quintão (2013), evidencia que o cabelo ocupa um papel central na construção e expressão da identidade, constituindo-se como um marcador simbólico e social, que, por ser uma característica visível do corpo e passível de transformação expressa pertencimento, resistência e processo de autoaceitação. A partir disso, é possível articular tais perspectivas com o pensamento de Stuart Hall (2006) sobre identidade cultural na pós-modernidade, no qual a identidade não é fixa, essencial ou imutável, e sim, um processo em formação, atravessado por disputas de poder e por sistemas simbólicos que definem quem pode ser reconhecido e em quais termos. Nesse contexto, o cabelo se configura como uma linguagem visual potente, por meio da qual se manifestam tanto os mecanismos de opressão quanto as estratégias de resistência e reexistência. O presente projeto surgiu a partir de um episódio de racismo ocorrido nas redes sociais, no qual uma estudante da Unipampa, campus São Borja, comparou cabelos lisos e crespos, associando o cabelo crespo à ideia de sujeira. A publicação gerou grande repercussão no campus e através desse contexto, esse projeto tem como objetivo promover a valorização da pluralidade étnica, cultural e social no campus, utilizando o cabelo como expressão de identidade, memória e estilo de vida, ao mesmo tempo em que se propõe a reflexão sobre os padrões estéticos eurocêntricos. Além disso, oportunizar um espaço de pertencimento e reconhecimento, no qual os participantes possam se ver representados e valorizados em suas identidades, estimular a reflexão crítica sobre padrões estéticos e vivências cotidianas relacionadas ao cabelo, a partir de experiências reais e promover a participação ativa do público, ampliando o debate e a troca de experiências no espaço expositivo. O projeto foi realizado durante dois dias no estúdio de fotografia do campus, foram produzidas fotografias dos participantes voluntários e registrados relatos sobre suas experiências e relações com os próprios cabelos. Posteriormente, as fotografias foram apresentadas em duas exposições, sendo uma durante o evento Elas por Elas, realizado no município de São Borja, e outra na Unipampa - campus São Borja, ampliando o alcance da proposta e promovendo a reflexão sobre identidade, pluralidade e valorização das diferentes formas de expressão por meio do cabelo. A avaliação do projeto está sendo realizada de forma contínua e coletiva, acompanhando as diferentes etapas de desenvolvimento. Como resultados parciais, destacam-se o relevante engajamento da comunidade acadêmica, com a participação de 60 pessoas, e a participação em um evento externo, que ampliou a visibilidade do projeto. A avaliação ainda está em andamento e contará com a autoavaliação coletiva do grupo PET, além da aplicação de um formulário com questões objetivas e qualitativas à comunidade acadêmica, buscando reunir percepções e feedbacks que contribuam para a análise dos resultados e a sistematização da experiência. Dessa forma, percebe-se que o projeto possibilitou alcançar os objetivos propostos ao promover a valorização da pluralidade étnica, cultural e social por meio do cabelo como expressão de identidade e memória. A participação da comunidade acadêmica e o compartilhamento de diferentes experiências contribuíram para a criação de um espaço de pertencimento e reconhecimento, ao mesmo tempo em que estimularam a reflexão sobre padrões estéticos e suas implicações no cotidiano. As fotografias e relatos permitiram ampliar o olhar sobre o cabelo para além da estética, reforçando sua dimensão simbólica e sua importância na construção da identidade e da autoestima.Downloads
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Publicado
2026-10-05
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Fio a Fio: o Cabelo Como Símbolo de Identidade e Resistência. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 6, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123857. Acesso em: 1 nov. 2026.