CAMINHOS DE OXUM: SABERES NEGROS E SURDOS NO PAMPA
Palavras-chave:
Memória, Ancestralidade, InterseccionalidadeResumo
Os territórios negros constituem-se para além de sua dimensão física e geográfica, configurando espaços de memória, resistência, pertencimento, produção e transmissão de saberes, nos quais sujeitos negros constroem e ressignificam identidades, experiências e formas de existência. Em Caçapava do Sul, município situado na Região da Campanha gaúcha e reconhecido como Portal do Pampa, esses territórios guardam histórias e manifestações culturais que evidenciam a presença e o protagonismo negro local. Neles inscrevem-se também experiências de pessoas negras surdas, cujas trajetórias são atravessadas por diferentes marcadores sociais e por modos particulares de vivenciar, produzir e compartilhar conhecimentos. Este trabalho constitui um recorte de pesquisa desenvolvida no âmbito de minha dissertação de mestrado, construída a partir de uma perspectiva implicada, na qual minha trajetória como pesquisadora negra e atuante no território negro e surdo caçapavano também atravessa a produção do conhecimento. Tem como objetivo analisar, a partir das memórias de uma mulher negra surda, como saberes negros e surdos se constituem e se entrelaçam nos territórios negros de Caçapava do Sul, evidenciando relações entre território, ancestralidade, pertencimento e identidade. A pesquisa, de natureza qualitativa, foi desenvolvida como estudo de caso, utilizando entrevistas narrativas e perspectiva interpretativa para análise dos dados. A interlocutora é uma mulher negra surda denominada Oxum, nome inspirado na Orixá das águas doces que, na pesquisa, entrelaça simbolicamente as águas da Fonte do Mato, território negro caçapavano, às águas do Atlântico ancestral. Seu abebé, espelho que ultrapassa a contemplação de si para revelar também aquilo que precisa ser visto, constitui metáfora de autoconhecimento, sabedoria e resistência, dimensões que atravessam a leitura de suas memórias. A análise evidencia que parte significativa dos saberes de Oxum relacionados à negritude e à cultura negra não se constituiu prioritariamente no espaço da educação formal, mas em sua inserção em territórios de convivência, resistência, cultura e educação não formal, especialmente o Clube Recreativo Harmonia e o Grupo Clara Nunes Dança, Teatro e Cultura Afro-Brasileira. Sua participação no grupo, entre os 13 e 20 anos, inserida em uma tradição familiar, revela modos próprios de vivenciar a cultura: Oxum vivencia a dança afro-brasileira pela observação dos movimentos das demais integrantes, pelas vibrações, ritmos e experiências corporais, atribuindo a esse percurso sentidos de coragem e empoderamento. Sua narrativa possibilita compreender que saberes culturais negros, quando atravessados pela experiência surda, também se constituem por dimensões visuais, corporais, sensoriais e relacionais. A ancestralidade emerge na continuidade geracional dessa experiência, quando Oxum compartilha com a filha sua trajetória no Grupo Clara Nunes e esta também passa a participar da dança, produzindo um movimento de transmissão da cultura, da memória e do pertencimento entre gerações. O Clube Recreativo Harmonia, onde se desenvolvem as atividades do grupo, ultrapassa a condição de espaço físico e constitui-se como território negro de memória, resistência, preservação cultural, formação e produção de conhecimentos. Os resultados permitem compreender que a trajetória de Oxum não apenas ocorre nesses territórios, mas participa de sua constituição, ao inscrever neles experiências e saberes produzidos na intersecção entre negritude, surdez e gênero. Conclui-se que reconhecer os saberes de mulheres negras surdas implica ampliar as concepções sobre os territórios negros e sobre as experiências surdas, compreendendo-os em sua pluralidade. As memórias de Oxum revelam o território como espaço educativo e de produção de saberes, no qual experiências negras e surdas se entrelaçam, são ressignificadas e transmitidas entre gerações, fortalecendo identidade, pertencimento e ancestralidade. Revelam também faltas, silenciamentos e apagamentos que precisam ser nomeados. Nos caminhos de Oxum, contudo, tudo aquilo que precisa ser dito pode ser dito com mel na boca: não para adoçar ou ocultar as ausências e dores, mas para transformá-las em memória, conhecimento e possibilidade de enfrentamento. Assim, entre águas, espelho e mel, suas memórias fazem emergir aquilo que precisa ser visto, reconhecido e transformado.Downloads
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Publicado
2026-10-05
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
CAMINHOS DE OXUM: SABERES NEGROS E SURDOS NO PAMPA. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 6, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123847. Acesso em: 28 out. 2026.