DIMENSÃO CULTURAL NO CUIDADO EM SAÚDE: RELATO DE EXPERIÊNCIA NO VER-SUS
Palavras-chave:
Espiritualidade, Integralidade, Saúde, Sistema, ÚnicoResumo
A compreensão ampliada da saúde no Sistema Único de Saúde (SUS) exige reconhecer que o cuidado não se limita aos serviços formais, como unidades básicas, hospitais ou atendimentos especializados, mas também se constitui nas relações sociais, nos territórios, nas famílias, nas comunidades, nas práticas culturais e nos modos como os sujeitos produzem sentido para a vida, o adoecimento e o cuidado. Nessa perspectiva, o VER-SUS (Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde) configura-se como uma experiência formativa potente ao aproximar estudantes da realidade concreta do SUS e provocar reflexões sobre a integralidade do cuidado. A inserção no VER-SUS foi oportunizada no contexto das atividades formativas do PET-Saúde e-Cidadania, possibilitando articular formação em Computação, saúde, território e cuidado integral. Este trabalho tem como objetivo descrever e analisar, a partir da experiência de um discente de Engenharia de Software no VER-SUS realizada em Uruguaiana/RS, como a religiosidade e a espiritualidade podem ser compreendidas como dimensões culturais do cuidado em saúde, especialmente quando articuladas ao território, à escuta, ao respeito às diferentes formas de viver e à medicina baseada em evidências. Trata-se de um relato de experiência no VER-SUS, ocorrido entre 22 e 28 de fevereiro de 2026, totalizando 84 horas. A vivência contemplou rodas de conversa, atividades formativas, inserções em serviços e territórios do SUS, debates sobre equidade, saúde mental, participação social e contato com expressões culturais e religiosas presentes no território. Entre as experiências vivenciadas, destacou-se uma roda de conversa com um pai de santo da Umbanda, na qual foram discutidos o conhecimento, o respeito e as contribuições das práticas religiosas para o cuidado em saúde. Embora a experiência concreta tenha partido da Umbanda, a reflexão permitiu ampliar o olhar para a religiosidade e a espiritualidade como dimensões culturais presentes de diferentes formas nos territórios. A atividade possibilitou compreender que a religiosidade não se restringe a uma crença individual nem a um recurso acionado apenas em situações de adoecimento, mas integra modos de vida, pertencimentos, vínculos comunitários, orientações éticas e formas de produzir sentido sobre a existência e o cuidado. Ao mesmo tempo, a fala da liderança religiosa ressaltou que espiritualidade e medicina não precisam ser compreendidas como campos opostos, desde que práticas religiosas não substituam tratamentos, acompanhamentos profissionais ou orientações clínicas necessárias. Assim, ritos, símbolos e práticas espirituais podem ser entendidos como dimensões culturais que favorecem acolhimento, confiança e vínculo, em diálogo com os princípios do SUS e com a integralidade do cuidado. A discussão também se relacionou com outros momentos do VER-SUS, nos quais a cultura apareceu como elemento constitutivo da saúde. No contato com manifestações ligadas ao carnaval, percebeu-se a cultura como espaço de pertencimento, convivência e fortalecimento de vínculos. Na vivência junto a uma comunidade quilombola, território, memória, natureza, ancestralidade, identidade e luta por direitos mostraram-se atravessadores da produção de saúde. Do mesmo modo, os debates sobre saúde mental e cuidado psicossocial evidenciaram que o acolhimento precisa considerar não apenas sintomas e diagnósticos, mas também histórias de vida, estigmas, pertencimentos e modos de existência. Assim, a experiência contribuiu para compreender que a cultura, em suas múltiplas expressões, não é elemento externo ao SUS, mas parte da construção do cuidado integral. Reconhecer a espiritualidade e a religiosidade como dimensões culturais do cuidado não significa atribuir a elas o papel de substituir a medicina, mas compreendê-las como aliadas possíveis da saúde quando articuladas aos princípios do SUS, ao respeito à autonomia dos sujeitos e à continuidade do acompanhamento profissional. Conclui-se que a vivência no VER-SUS ampliou a compreensão sobre saúde ao evidenciar que cuidar envolve também reconhecer crenças, territórios, ancestralidades, vínculos e sentidos que sustentam a vida das pessoas. Para a formação em Computação, a experiência reforçou que o desenvolvimento de soluções tecnológicas em saúde também precisa partir do cuidado, da escuta e da compreensão dos territórios. Assim como as expressões culturais podem atuar como dispositivos de cuidado, a tecnologia só contribui efetivamente para o SUS quando reconhece os sujeitos, os vínculos, as crenças, as comunidades e os modos de vida que atravessam a produção da saúde.Downloads
Os dados de download ainda não estão disponíveis.
Downloads
Publicado
2026-10-05
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
DIMENSÃO CULTURAL NO CUIDADO EM SAÚDE: RELATO DE EXPERIÊNCIA NO VER-SUS. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123838. Acesso em: 29 out. 2026.