Quem Cuida Quando Tudo Desaba? Mulheres e as Redes de Solidariedade Ao Longo da História

Autores

  • Josenildo Barros
  • Bianca Munieweg da Silva

Palavras-chave:

Mulheres, Memória, ancestralidade, Solidariedade, comunitária

Resumo

Ao longo da história, guerras, conflitos e desastres provocaram profundas transformações na organização das comunidades, interrompendo atividades cotidianas, desestruturando famílias e criando situações de vulnerabilidade. Em meio a esses períodos de ruptura, as redes de cuidado, solidariedade e organização comunitária tornam-se fundamentais para a sobrevivência coletiva. Nesse contexto, o presente trabalho busca compreender o papel das mulheres na construção e manutenção dessas redes em diferentes situações de crise ocorridas no Rio Grande do Sul, considerando tanto os conflitos históricos que marcaram a trajetória do estado quanto os desastres contemporâneos, especialmente as enchentes. A pesquisa parte da compreensão de que a participação feminina nesses contextos não deve ser observada apenas pelas ações registradas oficialmente, mas também pelas práticas cotidianas de cuidado, resistência, organização, transmissão de conhecimentos e preservação da memória coletiva. O estudo aborda experiências femininas relacionadas às guerras e revoltas ocorridas no território sul-rio-grandense, buscando compreender como as mulheres contribuíram para a manutenção da vida comunitária durante períodos de instabilidade. Enquanto parte da população masculina era mobilizada para os combates ou afastada de suas atividades, muitas mulheres permaneceram responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos e enfermos, pela alimentação, pelo trabalho nas propriedades, pela preservação dos vínculos familiares e pela continuidade das atividades necessárias à sobrevivência. Apesar de sua importância, muitas dessas experiências foram pouco registradas ou permaneceram secundarizadas nas narrativas históricas tradicionais. A pesquisa também estabelece uma relação com situações de desastre vivenciadas no Rio Grande do Sul na contemporaneidade, especialmente as enchentes que atingiram o estado. Para compreender essas experiências, foram realizadas entrevistas com mulheres que vivenciaram situações de crise ou participaram de ações de apoio às comunidades afetadas. Os relatos permitiram identificar diferentes formas de atuação, como preparação e distribuição de alimentos, arrecadação e organização de doações, acolhimento de pessoas afetadas, cuidado com crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, organização de abrigos, comunicação entre familiares e vizinhos e participação nos processos de reconstrução. As entrevistas constituem parte central da pesquisa por possibilitarem o acesso a experiências que nem sempre aparecem em documentos oficiais. A partir da memória oral, foi possível identificar conhecimentos e práticas construídos no cotidiano e transmitidos entre gerações. Os relatos indicam que muitas formas de solidariedade não surgem somente durante a emergência, mas estão relacionadas a ensinamentos familiares, relações de vizinhança, costumes comunitários e práticas de cuidado transmitidas entre mães, avós e filhas. Dessa forma, a memória feminina é compreendida não apenas como registro do passado, mas como mecanismo de preservação e circulação de conhecimentos capazes de contribuir para a organização social em períodos de crise. Os resultados apontam que os saberes construídos pelas mulheres constituem importantes formas de conhecimento comunitário e instrumentos de resistência. Práticas relacionadas à alimentação, ao cuidado, à organização dos espaços, à identificação das necessidades da comunidade, à comunicação e à formação de redes de ajuda possuem relevância concreta para a sobrevivência e reconstrução das comunidades, ainda que muitas vezes não sejam reconhecidas como conhecimento científico formal. Nesse sentido, o trabalho aproxima memória, cultura, ancestralidade e ciência, valorizando conhecimentos produzidos no cotidiano e transmitidos entre gerações. A pesquisa também evidencia a permanência das redes informais de solidariedade diante das transformações sociais e tecnológicas. Mesmo com a presença de estruturas institucionais de emergência e novas ferramentas de comunicação, as relações entre familiares, vizinhos e integrantes das comunidades continuam fundamentais em situações de crise. Dessa maneira, o trabalho busca superar a visão das mulheres como personagens secundárias das narrativas de guerra e desastre, reconhecendo-as como agentes ativas na manutenção da vida, da memória, da cultura e das relações comunitárias. Ao aproximar experiências relacionadas aos conflitos históricos do Rio Grande do Sul das vivências contemporâneas diante dos desastres, a pesquisa evidencia permanências e transformações nas formas de cuidado, resistência e solidariedade. Conclui-se que registrar e valorizar essas experiências contribui para preservar a memória feminina e o patrimônio cultural imaterial das comunidades, além de ampliar a compreensão sobre como os saberes femininos colaboram para que grupos sociais resistam, se reorganizem e preservem sua identidade diante de situações em que, metaforicamente, tudo desaba.

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Publicado

2026-10-05

Como Citar

Quem Cuida Quando Tudo Desaba? Mulheres e as Redes de Solidariedade Ao Longo da História. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123837. Acesso em: 2 nov. 2026.