ENTRE LENDAS E BAILADOS: MEMÓRIA, ANCESTRALIDADE E RESISTÊNCIA NEGRA NO NEGRINHO DO PASTOREIO

Autores

  • Katia Sillene Antunes da Silva
  • Angelina Seleme Damin Ribi
  • Josiane Castro de Vasconcellos Werner
  • Rodrigo Lemos Soares

Palavras-chave:

Educação, antirracista, Memória, coletiva, Relações, étnico-raciais

Resumo

A escola constitui um espaço fundamental para a problematização das desigualdades históricas, para a valorização da diversidade cultural e para o reconhecimento das contribuições da população negra na formação da sociedade brasileira. Nesse contexto, o projeto Entre Lendas e Bailados: Simões Lopes Neto em Cena foi desenvolvido na Eletiva de Base Alma Gaucha com estudantes da 1ª série do Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Médio Barão de Aceguá, no município de Aceguá, Rio Grande do Sul, entre os meses de maio e agosto de 2026. A proposta teve como objetivo promover a aproximação dos estudantes com a cultura regional por meio da literatura, da tradição oral, da música e da dança, utilizando a narrativa do Negrinho do Pastoreio como possibilidade de reflexão sobre memória, ancestralidade, violência histórica e presença negra no imaginário cultural sul-rio-grandense. A abordagem buscou ultrapassar a compreensão da lenda apenas como manifestação folclórica, favorecendo uma leitura crítica dos contextos históricos e sociais presentes na narrativa e das relações de poder que marcaram a experiência da população negra durante o período escravista. O trabalho também procurou valorizar as manifestações culturais de matriz popular como formas de preservação da memória coletiva e de transmissão de saberes entre gerações. No decorrer da eletiva, foram desenvolvidas atividades de leitura, contextualização histórica e cultural, diálogo, pesquisa e produção coletiva relacionadas à obra de João Simões Lopes Neto, às lendas do Rio Grande do Sul, à tradição oral, ao patrimônio cultural imaterial e às diferentes formas de representação da identidade regional. A narrativa do Negrinho do Pastoreio constituiu um dos principais eixos do projeto, possibilitando estabelecer relações entre literatura, história, memória e questões étnico-raciais. A partir da leitura e discussão da narrativa, foram problematizadas a violência sofrida pelo personagem negro, as marcas da escravização e as permanências de desigualdades construídas historicamente, ao mesmo tempo em que se buscou reconhecer a memória, a ancestralidade e a resistência como dimensões importantes para a valorização da população negra e de sua participação na constituição da sociedade e da cultura brasileira. Como estratégia de produção artístico-pedagógica, os estudantes participaram da elaboração coletiva de uma coreografia inspirada na narrativa do Negrinho do Pastoreio, utilizando como suporte musical a canção Negrinho do Pastoreio, na interpretação de Daniel Torres. A construção da coreografia ocorreu de maneira colaborativa entre os estudantes e as professoras Josiane Werner e Katia Sillene Antunes da Silva, articulando música, movimento corporal, expressão cênica e elementos simbólicos presentes na narrativa. A dança foi compreendida como uma linguagem capaz de comunicar conhecimentos, sentimentos e memórias, permitindo que os estudantes transformassem as reflexões realizadas durante as aulas em uma produção artística autoral e coletiva. Como resultado, observou-se a participação dos estudantes no processo de criação, na organização da apresentação e na construção de sentidos para a narrativa estudada, promovendo uma aproximação entre conhecimentos históricos, culturais e artísticos. A experiência possibilitou ainda ampliar o olhar sobre uma lenda tradicionalmente conhecida no Rio Grande do Sul, deslocando-a de uma abordagem exclusivamente folclórica para uma perspectiva que considera as relações entre memória, ancestralidade, escravização e resistência negra. A atividade também favoreceu o trabalho colaborativo, a expressão corporal e o protagonismo estudantil, demonstrando as potencialidades de práticas pedagógicas interdisciplinares para a abordagem das relações étnico-raciais no ambiente escolar. Conclui-se que o projeto contribuiu para a valorização da memória e da cultura afro-brasileira ao proporcionar aos estudantes uma experiência que articulou literatura, história, música e dança na reflexão sobre desigualdades produzidas historicamente. Ao ressignificar a narrativa do Negrinho do Pastoreio por meio de uma criação coletiva, buscou-se fortalecer uma educação comprometida com o reconhecimento da diversidade, com o enfrentamento ao racismo e com a valorização das diferentes matrizes culturais que constituem a sociedade brasileira.

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Publicado

2026-10-05

Como Citar

ENTRE LENDAS E BAILADOS: MEMÓRIA, ANCESTRALIDADE E RESISTÊNCIA NEGRA NO NEGRINHO DO PASTOREIO. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123831. Acesso em: 23 out. 2026.