Mulheres Que Leem com Mulheres: Experiência de Um Clube de Leitura Entre Amigas

Autores

  • Rafaella Fernandes Dias
  • Natieri Alison Oliveira Rodrigues
  • Tryany Larrosa Alves
  • Geice Peres Nunes

Palavras-chave:

formação, leitoras, círculos, leitura, experiências, femininas

Resumo

Este trabalho relata a experiência de um clube de leitura formado por seis amigas, dedicado ao livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés (2018). Embora tendo interesse pela obra, individualmente, as participantes não conseguiam lê-la devido à rotina ou mesmo à densidade da escrita de Clarissa Estés. A partir dessa constatação, uma das integrantes propôs a criação de um clube do livro, transformando a leitura adiada em um compromisso coletivo e, principalmente, em um espaço de discussão entre mulheres. Embora a iniciativa não possua vínculo institucional, sua metodologia é intrínseca à trajetória de cinco das seis participantes, estudantes da Unipampa. Ainda vale ressaltar que quatro integrantes são egressas do PET Letras e possuem experiência prévia com clubes de leitura, de forma prática e teórica, portanto, compreendem que a experiência interessa por demonstrar como práticas de leitura estimuladas e fortalecidas pela formação universitária podem ultrapassar os limites físicos e institucionais da universidade, passando a integrar outros espaços de convivência e formação. Dessa maneira, saberes iniciados na universidade se expandem chegando à comunidade externa. Como aporte teórico, parte-se das discussões de Rildo Cosson (2020), acerca do letramento literário e dos círculos de leitura, compreendendo que a construção dos sentidos de uma obra não se encerra na relação individual entre a leitora e o texto, mas pode ser ampliada pelo compartilhamento das diferentes interpretações produzidas em contato com o texto. Cosson (2020) diz que ler não é apenas uma atividade solitária, mas um ato social e cultural mediado pela linguagem, pelo contexto e pelas relações humanas que se estabelecem em torno dos textos. Para isso, o autor apresenta os Círculos de Leitura, definidos como reuniões de pessoas com o objetivo de discutir uma obra literária. Até o momento, foram realizados três encontros, na residência de uma das participantes, com duração de duas horas. Os encontros são precedidos pela leitura individual do capítulo previamente definido e, a cada edição, uma das integrantes fica responsável pela mediação. Para isso, foi adotado especificamente o modelo semiestruturado de círculo de leitura (Cosson, 2020), que combina organização e flexibilidade, permitindo a participação ativa dos leitores e a troca de interpretações, com a mediação servindo apenas como alguém para orientar as discussões. Sendo assim, não há um modelo fixo para essa função: cada mediadora possui liberdade para preparar perguntas, destacar passagens ou escolher outras formas de provocar a conversa. Sua atuação, contudo, é pensada como apoio e não como condução rígida, uma vez que se prioriza o desenvolvimento espontâneo das discussões (o que reforça o caráter semiestruturado). Os encontros também são marcados por seu caráter informal, com lanches compartilhados e conversas que frequentemente aproximam as questões apresentadas na obra das experiências e percepções das próprias participantes. Nas três edições realizadas, as discussões concentraram-se especialmente no papel atribuído às mulheres na sociedade, nas expectativas construídas sobre o feminino e no conceito de Mulher Selvagem desenvolvido por Estés. A leitura coletiva possibilitou que diferentes interpretações da mesma passagem fossem colocadas em diálogo. Como resultado parcial, observa-se que o clube passou a cumprir uma função que ultrapassa o incentivo inicial para concluir uma obra: os encontros construíram um espaço próprio de diálogo entre mulheres, no qual a leitura funciona simultaneamente como ponto de partida e elemento articulador das discussões. A experiência evidencia, ainda, a importância da dimensão coletiva para a formação de leitoras críticas, uma vez que o contato com interpretações diferentes permite questionar entendimentos inicialmente individuais, formular novas perspectivas e estabelecer relações entre literatura e vivências. A alternância da mediação reforça esse caráter coletivo ao distribuir entre as participantes a responsabilidade de provocar e sustentar a discussão, sem estabelecer uma posição permanente de autoridade sobre a interpretação da obra. Nesse processo, o ambiente doméstico e a relação de amizade não diminuem o caráter formativo dos encontros, ao contrário, permite compreender que a formação leitora não se limita aos espaços formais de ensino e pode se desenvolver em práticas culturais construídas a partir das relações cotidianas. A continuidade dos encontros com a discussão gradual dos capítulos da obra, pretende preservar justamente esse caráter: um clube criado entre amigas, mas que se consolida como espaço de leitura compartilhada, formação leitora crítica e diálogo sobre as diferentes experiências de ser mulher.

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Publicado

2026-10-05

Como Citar

Mulheres Que Leem com Mulheres: Experiência de Um Clube de Leitura Entre Amigas. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123826. Acesso em: 7 nov. 2026.