Medicina Popular: a banha de capivara com mel

Autores

  • William Pazinato
  • Ângela Maria Hartmann

Palavras-chave:

Palavras-chave, História, oral, Etnozoologia, Saberes, tradicionais

Resumo

Este trabalho dialoga com a ideia de que a cultura é um processo contínuo de construção simbólica do mundo. Ele é resultado de estudos realizados no componente curricular "Diversidade Cultural e Etnociências", ofertado nos cursos de licenciatura associados à Área Básica de Ingresso em Ciências e Matemática do campus Caçapava do Sul. O componente nos convida a observar como diferentes grupos humanos interagem com o meio ambiente e constroem seus próprios saberes no dia a dia. No Brasil, a medicina popular é fruto da mistura de diferentes culturas, unindo conhecimentos indígenas, africanos e europeus. Historicamente, populações rurais, por vezes distantes dos centros urbanos e com acesso restrito à medicina convencional, desenvolveram práticas de cuidado baseadas em conhecimentos e recursos disponíveis no próprio território. Nesse sentido, Schwartzman (1998) destaca que os conhecimentos populares são constituídos por práticas e tradições acumuladas ao longo do tempo, não devendo ser compreendidos como conhecimentos errôneos ou inferiores ao conhecimento científico. A etnozoologia também contribui para compreender essas relações, considerando que conhecimentos sobre os animais podem ser construídos por meio da tradição oral e da interação com a fauna local (Almeida, 2014). Um exemplo marcante dessa adaptação ao território é o uso tradicional da banha de animais silvestres, como a capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), presente na memória familiar do primeiro autor deste tranalho. Cabe ressaltar que a utilização da fauna silvestre é regulamentada pela legislação ambiental e que este estudo não tem a intenção de incentivar a caça ou o consumo de capivaras, mas atua como um resgate histórico, afetivo e patrimonial da memória familiar vivenciada no meio rural. O principal objetivo deste trabalho é resgatar, documentar e valorizar a memória familiar acerca do uso da banha de capivara combinada com o mel como uma prática tradicional de cuidado, buscando analisar como esse saber foi adotado, compreendido e transmitido pelo avô ao primeiro autor. Este estudo é de natureza qualitativa, descritiva e exploratória, fundamentado no método da História Oral. Os dados foram reunidos por meio do resgate de memórias afetivas e de relatos informais de familiares sobre as práticas de cuidado do patriarca da família em relação à saúde. Esses relatos foram acrescidos de uma breve revisão de literatura sobre etnozoologia, buscando conectar a história familiar ao conhecimento científico. A relação entre esse relato e a etnozoologia pode ser compreendida a partir de Almeida (2014), que destaca a importância da tradição oral e da interação com a fauna na construção de conhecimentos sobre os animais. Além disso, o autor aponta que diferentes formas de conhecimento podem coexistir e dialogar com o conhecimento científico, não sendo necessariamente excludentes. Através de conversas com o avô para resgatar essas memórias familiares, foi revelado que o uso da banha de capivara misturada com mel era uma prática de cuidado muito presente em sua vida e na rotina da casa. Essa mistura era utilizada principalmente para tratar problemas respiratórios, como gripes fortes e tosses persistentes que afligiam a família no inverno. Ele contou que o preparo consistia em derreter a banha na panela por bastante tempo e depois guardá-la cuidadosamente em garrafas para não estragar com o passar dos meses. Quando alguém da casa adoecia, ele colocava um pouco da banha com mel direto na colher para a pessoa engolir. Neste estudo, a prática não é analisada quanto à sua eficácia medicinal, pois não há comprovação científica ou liberação de órgãos de saúde para consumo oral desse produto animal, nem o abate de animais silvestres é permitido no Brasil, salvo exceções específicas de criadouros do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente IBAMA, mas enquanto um saber tradicional presente na memória familiar. Esse relato busca apenas evidenciar como a experiência cotidiana no espaço rural contribuiu para a construção e transmissão de um saber entre gerações. Conforme Schwartzman (1998), valorizar os conhecimentos tradicionais não significa considerá-los automaticamente equivalentes ao conhecimento científico, mas reconhecer sua existência, seu contexto e sua importância cultural. Conclui-se que o uso da banha de capivara com mel vai além de uma simples receita caseira antiga. Trata-se de uma prática presente na memória familiar relacionada às formas de cuidado existentes em uma área rural de Caçapava do Sul, assim como em outras regiões do país. Ao documentar esses saberes, compreendemos melhor como nossos antepassados se relacionavam com a natureza e produziam conhecimentos relacionados à saúde. Consideramos que, ao valorizar academicamente saberes tradicionais enquanto manifestações culturais, não se pode deixar de manter um diálogo crítico entre esses conhecimentos e o conhecimento científico.

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Publicado

2026-10-05

Como Citar

Medicina Popular: a banha de capivara com mel. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123808. Acesso em: 28 out. 2026.