Conhecimento Que Não Está nos Livros: Contribuições dos Saberes Femininos para a Compreensão do Território

Autores

  • Bianca Munieweg da Silva
  • Josenildo Santos Barros

Palavras-chave:

Gênero, Ciência, Saberes, populares, Território

Resumo

A produção do conhecimento científico esteve historicamente vinculada às instituições acadêmicas, espaços nos quais determinados métodos e formas de conhecimento foram legitimados como científicos. Entretanto, muito antes de serem registrados pela academia, diferentes comunidades já desenvolviam conhecimentos a partir da experiência e da relação cotidiana com o território. Paralelamente, dentro da própria ciência, mulheres pesquisadoras vêm construindo trajetórias de investigação sobre esse mesmo território por meio de métodos formais, embora inseridas em estruturas acadêmicas historicamente marcadas por desigualdades de gênero. Este trabalho parte da aproximação entre esses dois grupos de mulheres: de um lado, mulheres que preservam e transmitem saberes populares construídos no cotidiano e compartilhados entre gerações; de outro, mulheres cientistas que investigam o território no âmbito acadêmico. Busca-se compreender o que aproxima e o que diferencia essas formas de conhecer, e de que maneira as relações de gênero influenciam o reconhecimento e a legitimidade dos conhecimentos produzidos por mulheres, dentro e fora da ciência. O estudo não parte da ideia de que conhecimento tradicional e científico sejam equivalentes em seus métodos, mas busca compreender como diferentes formas de conhecer podem dialogar sem que os saberes populares sejam desconsiderados ou apropriados de forma descontextualizada. Foram realizadas entrevistas com dois grupos de mulheres. O primeiro foi composto por mulheres de diferentes gerações, portadoras de saberes construídos pela experiência cotidiana e pelas relações familiares e comunitárias, envolvendo conhecimentos sobre alimentação, agricultura, plantas, água, clima e cuidado. O segundo reuniu mulheres cientistas que atuam em investigações sobre o território, considerando suas trajetórias acadêmicas, os desafios enfrentados na formação e atuação profissional, e suas percepções sobre os saberes populares. A memória oral e os relatos de trajetória possibilitaram colocar em diálogo essas formas de conhecimento, reconhecendo ambos os grupos como produtores de saberes. A investigação também incorporou revisão bibliográfica sobre gênero, ciência e conhecimento tradicional, buscando compreender as relações entre mulheres e instituições acadêmicas e a forma como saberes produzidos fora da universidade são reconhecidos ou desconsiderados pela ciência. Os resultados indicam pontos de aproximação entre os dois grupos: em ambos, as participantes relataram invisibilização e necessidade de comprovar sua capacidade para serem reconhecidas. Entre as mulheres das comunidades, os relatos evidenciaram conhecimentos construídos pela observação prolongada do território e transmitidos entre gerações. Entre as cientistas, destacaram-se os desafios de formação e reconhecimento acadêmico. Algumas pesquisadoras relataram encontrar, por métodos científicos, fenômenos já reconhecidos empiricamente por comunidades há gerações, evidenciando complementaridade entre as formas de conhecimento. Observou-se também o enfraquecimento dos saberes populares pela diminuição de sua transmissão entre gerações, reforçando a importância de registrá-los sem retirar de suas portadoras o reconhecimento como produtoras desse conhecimento. A universidade apresenta-se, assim, como espaço de produção científica e de diálogo com conhecimentos produzidos fora dela. A pesquisa defende uma relação dialógica, na qual saberes populares sejam reconhecidos em seu contexto e as trajetórias das cientistas sejam compreendidas dentro das condições históricas que as atravessam. Reconhecer os saberes femininos, populares e científicos, amplia a compreensão sobre os caminhos pelos quais o conhecimento é produzido e legitimado, valorizando as mulheres como produtoras ativas de conhecimento e defendendo uma universidade aberta ao diálogo com os diversos saberes que constituem a sociedade.

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Publicado

2026-10-05

Como Citar

Conhecimento Que Não Está nos Livros: Contribuições dos Saberes Femininos para a Compreensão do Território. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123806. Acesso em: 24 out. 2026.