Vestido de Flor: salvaguarda de memória têxtil ancestral por meio de tecido mineral
Palavras-chave:
Saberes, tradicionais, Patrimônio, imaterial, Economia, circularResumo
A interseção entre a preservação do patrimônio cultural e a ciência dos materiais representa uma fronteira promissora para o desenvolvimento de práticas sustentáveis sob os preceitos da Engenharia Verde e da Economia Circular. No Bioma Pampa, a busca por dar utilidade a subprodutos industriais e de saneamento básico, como a cinza de casca de arroz (CCA) e o lodo de estação de tratamento de água (LETA), une o rigor técnico-científico à valorização da memória regional. Este trabalho teve como objetivo o desenvolvimento, a consolidação estrutural e a preparação para exibição de uma obra artística inédita e de salvaguarda cultural intitulada "Vestido de Flor", que realiza uma releitura tridimensional do vestido de prenda, símbolo da cultura gaúcha. A proposta fundamenta-se na valorização das expressões culturais e do patrimônio imaterial, focando nos saberes e fazeres que alicerçam a identidade regional. Tomou-se como referência dialógica o legado estético e as técnicas manuais da costureira Flor, cujo fazer artesanal no interior do Rio Grande do Sul foi transmitido por gerações. Diante do avançado estado de degradação física de um tecido histórico original confeccionado por ela há décadas, o projeto atuou diretamente na salvaguarda dessa memória por meio de um inédito processo de mineralização estrutural. A metodologia de conservação e criação consistiu no tratamento e reaproveitamento de resíduos laboratoriais da pesquisa da discente em ciência dos materiais, utilizando uma suspensão mineral à base de argila caulim, CCA e LETA calcinado. A peça de tecido em processo de esfacelamento foi imersa e embebida repetidas vezes, durante dias, até obter a infiltração completa da matriz orgânica ancestral pela suspensão cerâmica. Para garantir a estabilidade física e química, o composto têxtil-cerâmico foi submetido a sucessivos ciclos de secagem sob irradiação de calor, consolidando o denominado "tecido mineral". Durante a secagem, a fim de controlar a retração linear total induzida pela saída de água, a integridade anatômica da obra foi preservada com o auxílio de um suporte estrutural interno de aço, conformado pela discente para delinear as formas e silhuetas femininas contra as tensões de contração do material. Ademais, as propriedades físicas naturais da cinza e da argila foram aproveitadas para conferir uma tonalização autoral e orgânica à superfície da vestimenta, eliminando pigmentos artificiais. Os resultados observados comprovaram a alta eficácia do método de mineralização desenvolvido. O antigo tecido, antes em processo de degradação irreversível, obteve estabilidade física e química permanente, mantendo-se perfeitamente preservado sob a forma de um composto de alta integridade estrutural e estabilidade física. Como prova inequívoca dessa consolidação, a escultura finalizada atingiu auto sustentação estrutural, permanecendo em pé de forma autônoma e vencendo fisicamente a gravidade, enquanto quimicamente o tecido maleável original foi transformado em uma estrutura sólida permanente. A escultura finalizada manteve as proporções, o caimento e a fluidez visual do traje de prenda original, evocando a leveza do pano por meio da rigidez da matéria consolidada. A viabilidade estética e social da obra consolidou-se na conclusão da peça física, abrindo perspectivas para a realização de sua exposição presencial na UNIPAMPA - Campus Alegrete planejada para setembro, durante as comemorações da Semana Farroupilha, visando democratizar o acesso à arte e gerar reflexões profundas sobre a perenidade da cultura regional e a reciclagem tecnológica de resíduos de pesquisa. Conclui-se que a escultura "Vestido de Flor" estabelece um elo inovador entre arte tradicionalista gaúcha e engenharia, demonstrando que dejetos agroindustriais e técnicas de termomecânica podem ser direcionados para imortalizar o patrimônio imaterial do Pampa. Ao harmonizar a preservação histórica com a ciência aplicada, o trabalho executado de forma estritamente autoral pela discente resgata o legado manual feminino e o conhecimento tradicional, de modo que a própria escultura concluída constitui o resultado físico e o dado científico e estético mais expressivo de todo o processo de salvaguarda cultural, configurando-se como o elemento central de preservação ativa e apreciação desta obra.Downloads
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Publicado
2026-10-05
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Vestido de Flor: salvaguarda de memória têxtil ancestral por meio de tecido mineral. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123803. Acesso em: 27 out. 2026.