Saberes Ancestrais e Cultura Corporal na Educação Física Escolar

Autores

  • Daniel Messias
  • Luísa da Costa Batista
  • Mikaeli Severo Cabezudo
  • Paulo Roberto da Silveira
  • Diego de Matos Noronha
  • Marta Íris Camargo Messias da Silveira

Palavras-chave:

Cultura, corporal, Educação, antirracista, Saberes, ancestrais

Resumo

A Educação Física escolar constitui um espaço de produção e socialização de conhecimentos da cultura corporal, possibilitando abordar formas de movimentação e expressão construídas por diferentes grupos sociais. Entretanto, os currículos nem sempre reconhecem os saberes e as práticas corporais produzidas por povos indígenas, africanos e afro-brasileiros. É comum que essas manifestações sejam trabalhadas apenas em datas comemorativas ou de forma genérica, correndo-se o risco de reforçar estereótipos e desconsiderar a diversidade cultural. Trabalhar esses conhecimentos exige contextualização, respeito às origens e reconhecimento dos sujeitos que os produzem. Este trabalho tem como objetivo relatar e refletir sobre uma experiência pedagógica desenvolvida com estudantes do Curso Normal (magistério), envolvendo saberes e práticas corporais de matrizes indígenas, africanas e afro-brasileiras, buscando problematizar conhecimentos prévios e ampliar discussões sobre corpo, história, identidade e cultura. A experiência ocorreu no Instituto Estadual de Educação Elisa Ferrari Valls, em Uruguaiana/RS, durante o componente curricular Prática como Componente Curricular V. O estudo apresenta abordagem qualitativa e caracteriza-se como relato de experiência, construído a partir da inserção dos acadêmicos no cotidiano escolar. O percurso envolveu observação, planejamento, desenvolvimento das atividades, registros e reflexão posterior. Os resultados correspondem às observações e aos diálogos realizados nas aulas, sem instrumentos formais para mensurar mudanças de concepção. As propostas combinaram contextualização histórica, vivências corporais e conversas sobre origens e significados. Foram trabalhadas a peteca, discutida a partir de sua presença entre diferentes povos indígenas e de suas transformações históricas; jogos de matriz africana; movimentos e fundamentos da capoeira; e manifestações rítmicas afro-brasileiras, exploradas pela musicalidade, pelo ritmo e pela expressão corporal. As práticas não foram apresentadas como representações completas das culturas, mas como pontos de partida para pesquisa, experimentação e diálogo. Os resultados foram organizados em três eixos: conhecimentos prévios e problematização; ampliação do repertório sobre cultura corporal; e aprendizagens da formação docente. No primeiro eixo, os comentários iniciais mostraram que a peteca e a capoeira eram conhecidas por parte dos estudantes, mas frequentemente associadas somente à recreação ou ao esporte, desconsiderando a articulação com os grupos étnico-culturais e contextos responsáveis por sua produção. Os jogos de matriz africana e algumas manifestações rítmicas apresentaram menor reconhecimento inicial, provocando perguntas sobre regras, origens e sentidos culturais. Esses questionamentos possibilitaram discutir que práticas semelhantes podem assumir significados distintos conforme o povo, o território e o contexto. Também permitiram problematizar denominações genéricas, como se todos os povos indígenas ou africanos compartilhassem os mesmos conhecimentos e modos de vida. No segundo eixo, observou-se que a articulação entre vivência e diálogo contribuiu para que parte dos estudantes relacionasse as atividades às dimensões de história, memória, identidade, resistência e pertencimento. Nas vivências de capoeira e manifestações rítmicas, os diálogos abordaram musicalidade, coletividade, resistência cultural e processos de apagamento histórico-culturais. Nos jogos de matriz africana, destacaram-se a estratégia, a observação e o compartilhamento de conhecimentos. Essas manifestações foram compreendidas como indícios de ampliação do repertório e não como comprovação de transformação definitiva das concepções. A experiência também favoreceu a discussão sobre os cuidados necessários para abordar esses conhecimentos sem folclorizá-los ou des-contextualizá-los. No terceiro eixo, a preparação e a condução das aulas possibilitaram aos acadêmicos refletir sobre a responsabilidade na seleção dos conteúdos e das fontes. O planejamento exigiu pesquisa, escolha de estratégias e atenção às respostas das turmas. A atuação evidenciou que não basta acrescentar essas práticas ao currículo, sendo necessário compreender seus contextos, reconhecer sua diversidade e evitar apropriações ou generalizações. Conclui-se que a inserção desses saberes e práticas pode ampliar a compreensão da cultura corporal e diversificar a formação no Curso Normal. Contudo, uma intervenção pontual não é suficiente para superar apagamentos históricos ou preconceitos. Essas temáticas precisam integrar o currículo de forma contínua e contextualizada, em diálogo com produções, conhecimentos e, sempre que possível, representantes dos próprios povos e comunidades. Para a formação docente, a experiência reforçou a importância de práticas comprometidas com a pluralidade cultural e a educação anti-racista.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Saberes Ancestrais e Cultura Corporal na Educação Física Escolar. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123742. Acesso em: 23 out. 2026.