Territórios de Saberes: Mulheres, Ciência e Inovação como Vetores de Empreendedorismo Social
Palavras-chave:
Mulheres, Ciência, Saberes, Territoriais, Inovação, Social, Bioeconomia, Políticas, Públicas, CT&IResumo
A contemporaneidade impõe o desafio de repensar os modelos tradicionais de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico à luz da sustentabilidade e da justiça social. No cenário brasileiro, essa transição exige um olhar atento para a pluralidade de conhecimentos que coexistem no vasto território nacional. Historicamente, a ciência formal operou sob uma lógica de cima para baixo, desconsiderando ou secundarizando as práticas e os saberes construídos pelas comunidades tradicionais, rurais, ribeirinhas, quilombolas e periféricas. Contudo, uma análise aprofundada da bioeconomia emergente e dos ecossistemas de inovação social revela um fenômeno inverso e potente: os saberes práticos, ancestrais e cotidianos mantidos majoritariamente por mulheres nesses territórios constituem uma matriz fundamental de soluções sustentáveis e de soberania científica. Este artigo analisa como a articulação entre os conhecimentos territoriais femininos, a ciência contemporânea e as políticas públicas de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) pode redesenhar o futuro do empreendedorismo social no Brasil, transformando práticas locais em vetores de desenvolvimento nacional e conservação ambiental. A centralidade das mulheres na manutenção e na transmissão desses saberes territoriais não é um fato meramente casual; decorre de uma divisão histórica do trabalho e do cuidado com a terra, a saúde comunitária e a segurança alimentar. Nas florestas, nos cerrados, nas caatingas e nas periferias urbanas, são as mulheres as principais detentoras do conhecimento sobre o manejo de recursos da biodiversidade, o uso terapêutico de plantas medicinais, a conservação de sementes crioulas e o processamento de alimentos nativos. Esses saberes, longe de serem estáticos ou puramente folclóricos, representam sistemas complexos de adaptação e resiliência desenvolvidos ao longo de gerações. Quando essas práticas são estruturadas sob a forma de empreendimentos comunitários como cooperativas de extrativismo, associações de artesãs, cozinhas solidárias e redes de agroecologia , elas dão origem a uma forma autêntica de inovação social. O empreendedorismo social feminino, portanto, surge enraizado na coletividade, visando não apenas o lucro financeiro isolado, mas a regeneração ambiental, a autonomia econômica das mulheres e o bem-estar comunitário. A conversão desses saberes em produtos de alto valor agregado e tecnologias sociais eficientes ganha escala e legitimidade quando alinhada às diretrizes da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI). A aproximação entre o conhecimento tradicional e os laboratórios universitários cria um campo fértil para a transdisciplinaridade. Nesse encontro, a ciência formal não atua como uma força colonizadora que se apropria do saber popular, mas sim como uma parceira de cocriação. Laboratórios de química, biologia, engenharia de alimentos e ciências sociais passam a validar cientificamente as propriedades e a eficácia de insumos manejados pelas comunidades. O resultado é o desenvolvimento de fitoterápicos, biocosméticos, alimentos funcionais e técnicas de bioarquitetura que carregam consigo a marca da sustentabilidade e da rastreabilidade cultural, elementos altamente valorizados nos mercados nacional e internacional contemporâneos. Esse arranjo colaborativo subverte os fluxos tradicionais de inovação e dá origem ao conceito de transferência tecnológica reversa. No modelo convencional, a tecnologia é desenvolvida em centros de pesquisa de ponta e posteriormente difundida para a sociedade. Na transferência reversa, o ponto de partida é o território. As mulheres, ao liderarem seus empreendimentos comunitários, identificam demandas reais de mercado e criam soluções de baixo custo e energeticamente eficientes para problemas locais, como o armazenamento de sementes, a purificação da água ou o beneficiamento de frutos nativos. Ao levarem essas demandas e protótipos rudimentares para o diálogo com a academia, elas desafiam cientistas formais a aprimorar processos, certificar produtos e desenvolver maquinários adequados à realidade de campo. Assim, a inovação nasce da base da pirâmide social e oxigena a pesquisa acadêmica com problemas concretos e soluções sustentáveis pré-testadas pela vivência prática. Para que essa convergência se consolide e deixe de ser uma coleção de iniciativas isoladas, transformando-se em uma dinâmica estrutural da economia brasileira, a atuação do Estado por meio de políticas públicas integradas é urgente e indispensável. O primeiro passo consiste no fortalecimento e na criação de editais de fomento específicos para o empreendedorismo social e tecnológico feminino. Esses mecanismos de financiamento precisam compreender a dinâmica dos negócios comunitários, oferecendo recursos desburocratizados que alcancem cooperativas lideradas por mulheres periféricas e tradicionais, garantindo a infraestrutura básica para que possam processar seus produtos com segurança sanitária e qualidade.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Territórios de Saberes: Mulheres, Ciência e Inovação como Vetores de Empreendedorismo Social. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123718. Acesso em: 22 out. 2026.