Entre Gerações: a Predominância Feminina na Formação para o Magistério

Autores

  • Emanuely Pereira
  • Mikaeli Severo Cabezudo
  • Diego de Matos Noronha
  • Mauren Araujo

Palavras-chave:

Feminização, docência, Relações, gêneros, Formação, profissional

Resumo

A docência, especialmente na educação de crianças, foi historicamente associada às mulheres. Essa relação não decorre de uma capacidade feminina natural para ensinar ou cuidar, mas de processos sociais e culturais que atribuíram às mulheres funções e responsabilidades. A presença majoritária feminina na formação para o Magistério pode ser compreendida como parte desse processo, que atravessa gerações e permanece visível nos espaços escolares. Este trabalho tem como objetivo refletir sobre a predominância feminina na formação para o Magistério, relacionando observações realizadas durante a inserção no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) ao processo histórico de feminização da docência. Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, do tipo relato de experiência, com caráter descritivo e reflexivo, desenvolvido na Escola Estadual de Ensino Médio Elisa Ferrari Valls, em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. O relato foi construído a partir das observações realizadas no PIBID e do diálogo com produções bibliográficas sobre mulheres, educação, gênero e feminização do magistério. Por se tratar de uma experiência em desenvolvimento, as considerações possuem caráter preliminar e não pretendem representar quantitativamente todas as turmas nem explicar individualmente as escolhas profissionais. A inserção no programa foi marcada pela aproximação com a instituição e pela observação das turmas. Entre os aspectos que despertaram atenção estava a composição dos grupos vinculados à formação para o Magistério. Uma das turmas acompanhadas, denominada Etapa, reunia mulheres de faixa etária mais elevada, enquanto outras eram compostas por estudantes mais jovens que cursavam simultaneamente o Ensino Médio e a formação profissional. Apesar das diferenças de idade e de trajetória escolar, percebeu-se uma característica comum: a presença feminina era predominante, enquanto poucos homens participavam dessa formação. A predominância feminina foi observada tanto na turma composta por mulheres de maior faixa etária quanto nas turmas formadas por estudantes mais jovens, indicando a permanência do fenômeno entre diferentes gerações. Essa observação despertou questionamentos sobre a permanência desse fenômeno no Magistério. O diálogo com a literatura permitiu compreender que a feminização da docência foi construída ao longo de transformações sociais e educacionais. A ampliação da escolarização e do ingresso das mulheres no trabalho docente foi acompanhada por discursos que relacionavam o ensino ao cuidado, à dedicação, à afetividade e à maternidade. Essas características foram apresentadas como extensões de um papel considerado feminino, contribuindo para legitimar a presença das mulheres no Magistério. Entretanto, essa associação pode ocultar a dimensão profissional da docência, como se ensinar dependesse de uma vocação natural, e não de formação e conhecimentos pedagógicos. A feminização não deve ser interpretada apenas como aumento numérico da presença feminina, mas como processo relacionado à divisão sexual do trabalho e à valorização social das ocupações associadas às mulheres. As observações mostraram que a predominância feminina não estava restrita às estudantes mais jovens. A presença de mulheres de diferentes idades indicou que o Magistério pode integrar trajetórias diversas, incluindo a formação iniciada ou retomada em diferentes momentos da vida. Contudo, como não foram realizadas entrevistas, não é possível afirmar quais fatores determinaram suas escolhas. As experiências observadas serviram como ponto de partida para problematizar um fenômeno coletivo, e não para atribuir motivações individuais. A reduzida presença masculina também provocou reflexões sobre como as relações de gênero delimitam profissões percebidas como femininas ou masculinas. Essa divisão pode afastar homens da docência com crianças e reforçar expectativas de que mulheres seriam naturalmente responsáveis pelo cuidado e pela educação. Para a bolsista, a experiência evidenciou que a observação do cotidiano pode produzir questões relevantes para a formação docente quando articulada ao estudo e à reflexão crítica. O contato com mulheres de diferentes gerações ampliou a compreensão sobre a docência como profissão atravessada por relações de gênero, trajetórias de vida e processos históricos. A presença de mulheres de diferentes gerações na formação para o Magistério também evidencia a participação histórica feminina na produção e transmissão de saberes educacionais. A predominância feminina observada não permite inferir motivações individuais para a escolha profissional, mas pode ser problematiza à luz do processo histórico de feminização da docência. A experiência no PIBID contribuiu para transformar uma percepção cotidiana em problema de reflexão e fortaleceu a formação da bolsista ao aproximar questões de gênero, educação e profissão docente.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Entre Gerações: a Predominância Feminina na Formação para o Magistério. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123707. Acesso em: 22 out. 2026.