Automedicação em Território de Fronteira: Justiça, Letramento em Saúde e Escolhas Terapêuticas em Uruguaiana
Palavras-chave:
Equidade, Saúde, Uso, Racional, Medicamentos, EducaçãoResumo
As escolhas relacionadas à automedicação são produzidas no encontro entre sintomas, experiências anteriores, disponibilidade de medicamentos, fontes de informação e possibilidades concretas de acesso ao cuidado. Em Uruguaiana/RS, município situado em fronteira internacional, essas decisões adquirem especial relevância por ocorrerem em um território no qual diferentes itinerários de cuidado, circulação de informações e formas de obtenção de medicamentos compõem o cotidiano. Partindo dessa compreensão, desenvolveu-se uma ação extensionista vinculada ao componente curricular Bioética, Direitos Humanos e Cidadania do Curso de Medicina da Universidade Federal do Pampa, com o objetivo de dialogar com a comunidade sobre automedicação e compreender circunstâncias sociais, informacionais e assistenciais presentes nas escolhas terapêuticas realizadas sem orientação profissional. A atividade ocorreu na região central do município, no entorno de uma unidade farmacêutica, com 20 participantes abordados voluntariamente por conveniência. A intervenção articulou material educativo, perguntas disparadoras, escuta ativa e conversas breves em linguagem acessível e não moralizante. Não foram realizados anamnese, diagnóstico, prescrição, orientação clínica individualizada ou coleta de dados pessoais e sensíveis; situações que demandavam avaliação profissional eram direcionadas aos serviços formais do Sistema Único de Saúde. Ao final das interações, os 20 participantes assinalaram a opção correspondente ao nível máximo da avaliação visual de satisfação (20/20; 100%), resultado que documenta elevada receptividade imediata à atividade, sem permitir inferências sobre retenção de conhecimento ou mudança comportamental, uma vez que não houve seguimento posterior. Os dados de maior densidade emergiram das conversas. Entre pessoas idosas e participantes com doenças crônicas, destacou-se a confiança em analgésicos e anti-inflamatórios percebidos como medicamentos conhecidos, cuja segurança era associada à familiaridade, ao alívio obtido anteriormente ou à recomendação de pessoas próximas. Entre adultos jovens e economicamente ativos, cefaleia, azia, dores musculares, insônia e ansiedade apareciam como intercorrências que exigiam resolução rápida para preservar compromissos, rotina e produtividade, conferindo ao medicamento valor instrumental no manejo do cotidiano. Buscadores, redes sociais, recomendações familiares, experiências prévias e reaproveitamento de prescrições antigas também integraram o repertório mobilizado para orientar decisões. Em conjunto, os relatos sugerem que a automedicação se inscreve em uma racionalidade pragmática, na qual dor, tempo, trabalho, memória terapêutica, informação e acesso se combinam na escolha de uma resposta disponível. O princípio da justiça, assumido como eixo bioético, permitiu interpretar esses elementos a partir das condições reais de proteção que antecedem a decisão: tempo para procurar atendimento, acesso oportuno a profissionais, informação confiável, acompanhamento de condições crônicas e capacidade de compreender orientações medicamentosas constituem recursos cuja disponibilidade varia entre pessoas e circunstâncias. O letramento em saúde aprofundou essa leitura ao situar a segurança da escolha na relação entre competências individuais e a complexidade do ambiente informacional e assistencial. A experiência produziu ainda um resultado formativo relevante: a equipe iniciou a ação preparada para oferecer informações sobre uso seguro de medicamentos e, no encontro com a comunidade, ampliou a própria compreensão do fenômeno. O território deixou de funcionar apenas como cenário da intervenção e tornou-se interlocutor, revelando como escolhas terapêuticas são atravessadas por condições de vida que a orientação técnica, isoladamente, não alcança. Conclui-se que ações extensionistas voltadas ao uso seguro de medicamentos ganham maior consistência quando articulam educação, escuta e acesso ao cuidado, reconhecendo que diferentes pessoas não decidem diante das mesmas informações, do mesmo tempo disponível ou das mesmas possibilidades assistenciais. Nesse sentido, a segurança medicamentosa também se apresenta como uma questão de justiça: promover escolhas mais seguras exige compreender não apenas o que o indivíduo faz diante de um sintoma, mas quais condições lhe foram efetivamente oferecidas para decidir.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Automedicação em Território de Fronteira: Justiça, Letramento em Saúde e Escolhas Terapêuticas em Uruguaiana. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123695. Acesso em: 29 out. 2026.