Extensão Universitária no Consultório na Rua: Cuidado Humanizado População Vulnerabilizada
Palavras-chave:
Vulnerabilidade, social, Atenção, Primária, Saúde, Extensão, universitáriaResumo
O Consultório na Rua (CnR) constitui um dispositivo do Sistema Único de Saúde (SUS) instituído pela Portaria nº 122 de 2011, no âmbito da Política Nacional de Atenção Básica, voltado ao cuidado itinerante da população em situação de rua, grupo historicamente marcado por vulnerabilidade social, estigma e dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Fundamentado nas diretrizes da Política Nacional de Humanização e articulado aos princípios da redução de danos, da atenção centrada no usuário e da intersetorialidade, o CnR representa, no contexto da Saúde Coletiva, uma estratégia de enfrentamento às desigualdades enfrentadas por essa população. O presente trabalho tem como objetivo relatar a experiência de acadêmicos do curso de Medicina de uma universidade federal do interior do Rio Grande do Sul durante ação de extensão desenvolvida junto ao CnR. A vivência ocorreu, no período de maio a junho de 2025, por meio do acompanhamento das atividades cotidianas de uma equipe multiprofissional composta por enfermeira, médico, redutora de danos, assistente social e técnica de enfermagem, incluindo o acolhimento na unidade e o serviço itinerante de busca ativa pela cidade, no qual são realizadas ações de atenção em saúde e são registrados dados básicos das pessoas em situação de rua, favorecendo a construção de vínculo e o acesso ao cuidado. Como ação de extensão realizada pelos estudantes, foi desenvolvida uma dinâmica interativa, de perguntas e respostas na qual os usuários retiravam, de um recipiente, afirmações sobre temas de sua realidade, como uso de drogas e álcool, sexualidade, infecções sexualmente transmissíveis, cuidados com feridas, higiene pessoal e acesso a direitos e programas públicos, classificando-as como mito ou verdade e o relato de sua experiência em relação ao tema, seguida de mediação dos estudantes por meio diálogo e informações de base científica em linguagem acessível. Observou-se que o CnR configura-se como espaço de acolhimento que ultrapassa o atendimento clínico, oferecendo suporte psicológico, material e de vínculo, sendo reconhecido pelos usuários como referência de cuidado e confiança, além de atuar de forma articulada com dispositivos da rede, como o Centro de Atenção Psicossocial voltado ao público com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas e a Casa de Passagem. Verificaram-se, contudo, entraves significativos à efetivação plena do serviço, como a ausência de veículo próprio para as atividades itinerantes, a escassez de insumos como vestuário para períodos de frio, a morosidade dos trâmites burocráticos para internações nos casos necessários e a persistência de uma visão assistencialista sobre o papel da equipe entre parte da população e de agentes institucionais. Na dinâmica educativa, constatou-se que a maioria dos participantes respondia com espontaneidade às afirmações propostas, evidenciando conhecimento prévio sobre os temas, e experiência de vida, ainda que nem sempre aplicado na prática cotidiana, o que reforçou a relevância das informações complementares oferecidas pelos acadêmicos visando a promoção da saúde. Um caso emblemático envolveu uma usuária sob efeito de substância psicoativa, atendida com escuta respeitosa e adaptação da abordagem da dinâmica às suas condições momentâneas, ilustrando a necessidade de flexibilidade e sensibilidade no cuidado a essa população. Conclui-se que a experiência proporcionou compreensão ampliada sobre os princípios doutrinários do SUS, sobretudo equidade e integralidade, e sobre os limites e os desafios da prática cotidiana dos serviços de saúde voltados a populações vulnerabilizadas. A humanização do cuidado revelou-se um processo relacional e ético, que demanda escuta ativa, presença afetiva e reconhecimento do território como espaço de vida e de relações, e não apenas como espaço físico. A vivência no Consultório na Rua reafirma a importância de práticas de extensão universitária que aproximem a formação médica de realidades marcadas por exclusão social, contribuindo para a formação de profissionais mais sensíveis às determinações sociais da saúde e comprometidos com um sistema de saúde público, equitativo e verdadeiramente humanizado.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Extensão Universitária no Consultório na Rua: Cuidado Humanizado População Vulnerabilizada. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123679. Acesso em: 22 out. 2026.