Ecossistema Pampeano: Um Modelo Integrado de Extensão Universitária na Fronteira Brasil-uruguai
Palavras-chave:
Extensão, Universitária, Ecossistemas, Inovação, Fronteira, Brasil-Uruguai, Educação, IntergeracionalResumo
O trabalho analisa a experiência do Campus Sant'Ana do Livramento da Universidade Federal do Pampa, situado em cidade conurbada com Rivera, no Uruguai, o que confere à extensão ali um caráter distinto do observado em campi do interior do território nacional. Na última década, o campus consolidou quatro frentes de extensão com origens e públicos próprios: o Projeto Pampeano, cursinho popular que prepara estudantes da rede pública para o Exame Nacional do Ensino Médio; a Biblioteca Pampeana, espaço de incentivo à leitura com acervo constituído ao longo de anos; o Pampeano 60+, programa de alfabetização e letramento digital para pessoas idosas dos dois lados da fronteira; e o ConectaPampa, observatório de pesquisa sobre juventudes e gerações. O argumento central sustenta que a reunião dessas iniciativas sob a denominação de Ecossistema Pampeano corresponde a um processo real de construção de governança compartilhada, identidade institucional comum e circulação efetiva de pessoas, conhecimento e infraestrutura, e não a uma justaposição administrativa de projetos que já existiam de forma independente. O problema que orienta a reflexão é saber em que medida essa coexistência se converte, de fato, em um ecossistema, na acepção da literatura sobre ecossistemas de inovação, e não permanece como iniciativas paralelas. A base metodológica é a sistematização de experiências, na formulação de Jara Holliday (1996; 2012), compreendida como interpretação crítica de uma prática vivida, capaz de gerar aprendizados que qualifiquem a ação futura. A escolha se justifica porque o Ecossistema Pampeano constitui um arranjo institucional ainda em formação, cuja governança vai sendo construída pelos próprios sujeitos que a praticam, condição que torna a sistematização mais adequada do que uma avaliação voltada a resultados fechados. A reconstrução apoia-se em registros institucionais de cada projeto, como cadastros de extensão, planilhas de acompanhamento e atas de reuniões, conforme orientações de Severino (2014) e de Brandão (2007). O referencial teórico parte do conceito de ecossistema aplicado a arranjos organizacionais proposto por Moore (1993), que descreve comunidades de atores interdependentes cuja evolução conjunta atravessa estágios de nascimento, expansão, liderança e renovação. Dhanaraj e Parkhe (2006) atribuem a quem orquestra uma rede desse tipo a tarefa de garantir a mobilidade do conhecimento entre os participantes e manter a estabilidade do conjunto, funções que Matos e Teixeira (2022) detalham na articulação de recursos compartilhados. Essa leitura dialoga com Paulo Freire, para quem toda extensão pressupõe comunicação, e não a transmissão de um saber pronto a uma comunidade receptora passiva (FREIRE, 1985; 1996; 2011), o que sustenta ler o Ecossistema Pampeano como arranjo voltado a produzir comunicação entre a universidade e a comunidade fronteiriça, em diferentes gerações. A governança está estruturada em dois níveis, com um docente na coordenação geral e três discentes em coordenação executiva comum, que circulam entre as frentes e carregam conhecimento de uma iniciativa para as demais, movimento tornado mais visível pela sede física própria conquistada recentemente, onde passaram a ocorrer reuniões, aulas e parte da logística antes dispersas pelo campus. Os resultados evidenciam a maturidade desigual, porém convergente, das quatro frentes. O Projeto Pampeano acumula, desde 2014, mais de 1.300 inscrições e 184 aprovações em instituições de ensino superior, com maioria de estudantes mulheres. O Pampeano 60+ atende pessoas idosas, trabalhadoras e aposentadas em Santana do Livramento e em Rivera, também com maioria feminina, financiado por edital do PROFEXT. O ConectaPampa já produz conhecimento científico sobre juventudes e gerações na fronteira, enquanto a Biblioteca Pampeana mantém acervo consolidado ao longo dos anos, hoje incorporando um programa permanente de leitura, ainda que preserve maior autonomia por ter sido constituída antes do arranjo atual. A predominância de mulheres entre as jovens do cursinho e as idosas do programa de letramento aproxima o Ecossistema Pampeano do tema do evento, e a circulação das lideranças discentes entre as frentes, sustentada pela sede comum, evidencia a integração pretendida. O trabalho conclui que a extensão universitária ganha densidade quando ensino, pesquisa e extensão compartilham identidade institucional, espaço físico e propósito social, e que o caráter ainda inacabado do Ecossistema Pampeano reforça, em vez de enfraquecer, seu valor como objeto de sistematização. O arranjo oferece um caso em desenvolvimento capaz de orientar outras experiências de extensão organizadas em rede, sobretudo em contextos de fronteira, nos quais a articulação entre gerações, saberes e territórios se impõe como condição para que a universidade cumpra sua função social.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Ecossistema Pampeano: Um Modelo Integrado de Extensão Universitária na Fronteira Brasil-uruguai. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123607. Acesso em: 29 out. 2026.