Espaços em movimento: crianças e a (re)organização da Brinquedoteca Universitária
Palavras-chave:
Brinquedoteca, espaços, criançasResumo
A Brinquedoteca Universitária constitui-se como um espaço articulador entre ensino, pesquisa e extensão. No âmbito do ensino está articulada a diferentes componentes curriculares do Curso de Graduação em Pedagogia, os quais realizam atividades práticas nesse espaço, bem como contribui para a formação e capacitação dos acadêmicos que atuam como bolsistas/brinquedistas. Em relação à pesquisa, o projeto fomenta investigações sistemáticas voltadas à documentação e análise das ações das crianças e de suas culturas lúdicas. Na dimensão da extensão, a Brinquedoteca desenvolve o projeto intitulado Brinquedoteca: educação, cultura e ludicidade, o qual prevê visitações de escolas de Educação Infantil e Anos Iniciais de Jaguarão e municípios próximos, além de associações comunitárias e projetos vinculados à Prefeitura Municipal. É nesse contexto das visitas que este trabalho propõe analisar como o olhar dos adultos sobre as experiências das crianças e os usos que elas fazem dos espaços mobilizam processos de reorganização da brinquedoteca universitária. Para tanto, trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, que toma a observação como prática investigativa, buscando compreender os modos como as crianças ocupam, utilizam e ressignificam os espaços da brinquedoteca e como esses usos mobilizam o olhar adulto e processos de reorganização dos ambientes. O estudo está ancorado na compreensão da criança como um sujeito de direito e produtor de cultura (Brasil, 2009), que se constitui na relação com o outro, a partir de práticas que constituem modos de ser criança na contemporaneidade. Para a produção dos dados do estudo, foram realizadas observações das visitas das crianças à brinquedoteca. É por meio do brincar que as crianças comunicam e manifestam aquilo que desejam, mobilizando outras formas de organizar os espaços, tornando-os mais seguros, atrativos e com diversas possibilidades e liberdade de escolha. Nessa direção, pensar a infância implica reconhecer as crianças como sujeitos que produzem cultura e atribuem sentidos às experiências que vivenciam (Kramer, 2003). Dentro desse contexto, a observação das crianças configura-se não apenas como registro do que acontece na brinquedoteca, mas como algo que produz deslocamentos no olhar adulto e provoca transformações no próprio espaço. Foi possível notar que as crianças se apropriam muito mais dos espaços que possuem semelhança com seu cotidiano, como o mercadinho e a cozinha, o que nos levou a pensar que estas são realidades vivenciadas na própria cultura familiar; ainda, demostram grande interesse por brincadeiras que envolvam atravessamento de túneis, o que indica a necessidade das crianças de testarem o próprio corpo, brincando com seus limites e possibilidades. Ao observar e pensar a disposição dos brinquedos para as crianças, foi possível desenvolver um novo olhar e uma reorganização do espaço, como por exemplo, qualificando e ampliando os materiais e objetos disponíveis no mercadinho, trocando a cozinha de lugar e movimentando o mobiliário, com o objetivo de ampliar o espaço livre e favorecer os deslocamentos e interações entre as crianças. Tais percepções alinham-se aos estudos de Martins e Garahani (2011), que destacam que as crianças querem espaços para brincar, mas não qualquer espaço (p. 53). Mais do que indicar preferências por determinados brinquedos ou ambientes, essas formas de ocupar o espaço protagonizadas pelas crianças evidenciam o quanto elas produzem sentidos sobre os espaços a partir de suas experiências, interesses e possibilidades de ação. Ao acompanhar os modos como as crianças circulam, permanecem e experimentam os espaços, torna-se possível perceber que a organização do ambiente não é neutra, mas interfere nas possibilidades de interação, movimento, exploração e brincadeira. As modificações realizadas, portanto, não resultaram apenas de uma reorganização dos objetos e mobiliários, mas de um processo de escuta e observação das crianças, compreendendo suas ações como elementos capazes de produzir conhecimentos sobre os espaços e orientar as escolhas dos adultos. Nesse sentido, a experiência na brinquedoteca evidencia que observar as crianças implica também rever os modos como os ambientes são pensados e organizados, reconhecendo que os espaços ganham novos sentidos a partir das relações que neles se estabelecem. As crianças, ao brincar, movimentar-se, experimentar e criar diferentes formas de ocupação, também transformam os espaços e provocam deslocamentos no olhar adulto. Assim, a brinquedoteca constitui-se como um espaço em permanente construção, no qual as culturas da infância e a cultura lúdica se entrelaçam e produzem outras possibilidades para o brincar. Ainda que não se configure como um espaço formal de escolarização, a experiência reafirma a centralidade das interações e brincadeiras nas experiências das crianças (Brasil, 2009) e evidencia a importância de espaços que reconheçam e acolham seus modos de ser, agir e produzir cultura.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Espaços em movimento: crianças e a (re)organização da Brinquedoteca Universitária. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123550. Acesso em: 22 out. 2026.