Territórios de Saberes: Tia Maria, Ancestralidade e Educação Popular no Cuidado Comunitário em Saúde
Palavras-chave:
Educação, popular, Envelhecimento, Saberes, comunitáriosResumo
Os territórios também são constituídos pelas histórias, memórias e saberes daqueles que os habitam, e é nas relações construídas ao longo do tempo que conhecimentos, formas de cuidado e modos de compreender a vida são preservados e compartilhados entre gerações. É nesse sentido que a trajetória de Tia Maria, revela-se como um território vivo de saberes, marcado pela ancestralidade, pela educação popular e pelo cuidado comunitário. Aos 91 anos, Tia Maria permanece ativa em sua comunidade, compartilhando conhecimentos construídos ao longo de sua trajetória de vida. Mulher negra, nascida em Restinga Seca/RS e residente em Cachoeira do Sul/RS, possui uma história marcada pelo cuidado, pela religiosidade, pela participação comunitária e pela transmissão de saberes relacionados às plantas medicinais e à preservação da vida. Há aproximadamente cinco décadas atua junto à Pastoral da Saúde da Igreja Católica, especialmente na comunidade vinculada à Capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Sua casa e sua horta constituem espaços de acolhimento, aprendizagem e compartilhamento de conhecimentos, frequentados por diferentes gerações e por estudantes universitários. Sua trajetória também é atravessada por uma importante contradição: durante a infância, teve o acesso à escolarização formal restringido pelas condições sociais e culturais de seu tempo, ingressando na escola somente após os 30 anos. Posteriormente, foi aprovada em concurso público e tornou-se servidora escolar estadual. A experiência de quem teve a escolarização limitada e, posteriormente, tornou-se referência de aprendizagem evidencia que os conhecimentos construídos na experiência cotidiana também constituem territórios de produção de saberes. O objetivo deste estudo é analisar como a trajetória e as práticas de transmissão de saberes de Tia Maria constituem um território vivo de ancestralidade, educação popular e cuidado comunitário, evidenciando contribuições para o diálogo entre comunidade, universidade e formação em saúde, especialmente no campo da inclusão e dos direitos humanos. A pesquisa possui abordagem qualitativa e utiliza elementos da História Oral de Vida. A participante central é M. L. C. S., Tia Maria, 91 anos, integrante da comunidade de Cachoeira do Sul/RS, que assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A produção dos dados envolveu entrevistas, registros de narrativas, documentação fotográfica e levantamento de materiais de seu acervo pessoal, incluindo cadernos, apostilas, registros de experiências e livros relacionados às plantas medicinais e ao cuidado comunitário. A análise foi organizada a partir de categorias relacionadas à ancestralidade e memória; transmissão intergeracional; saberes comunitários e cuidado; educação popular; relação comunidade-universidade; envelhecimento; e preservação do conhecimento, em diálogo com Freire (1996), Santos (2007) e Meihy e Holanda (2010). Os resultados evidenciam que a trajetória de Tia Maria constitui um território de saberes construído ao longo de nove décadas, articulando memória, natureza, religiosidade, cuidado e educação. Entre os achados destaca-se uma experiência que possibilitou a interpretação denominada pedagogia da licença. Ao recordar uma aprendizagem junto a uma liderança indígena Kaingang, na região de Nonoai/RS, Tia Maria relata: Quando nós botemos o pé pra entrar no mato eles disseram: não entrem... Sempre a gente tem um ser maior e esse ser maior está sempre nos esperando, mas nós devemos pedir licença... Eu vou entrar, pedir licença, e aí vocês entram. O relato é compreendido como memória de sua trajetória de aprendizagem, sem atribuir-lhe a titularidade de conhecimentos pertencentes ao povo Kaingang. Seu significado, para este estudo, está na relação ética com a natureza, marcada pelo respeito, pela responsabilidade e pelo reconhecimento do território. A horta de Tia Maria constitui outro importante achado, configurando-se como território pedagógico vivo. O espaço já recebeu estudantes de Medicina, Enfermagem, Educação Básica, Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional, possibilitando aprendizagens por meio da observação das plantas, da escuta das narrativas e da articulação entre experiência, memória e território. Nesses encontros, conhecimentos acadêmicos dialogam com experiências comunitárias e familiares, muitas vezes despertando lembranças relacionadas às avós e às práticas de cuidado de outras gerações. Produz-se, assim, uma inversão pedagógica: não é apenas a universidade que ensina a comunidade; a comunidade também ensina a universidade. Para Tia Maria, cuidar é uma troca, uma corrente do bem que passa de uma pessoa para outra. Seus saberes não são guardados, mas compartilhados, porque é para ensinar outros e esses ensinarem outros. Sua história mostra que a velhice também é tempo de ensinar, aprender e preservar memórias, reafirmando o território como espaço vivo de cuidado e conhecimento.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Territórios de Saberes: Tia Maria, Ancestralidade e Educação Popular no Cuidado Comunitário em Saúde. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123546. Acesso em: 29 out. 2026.