Aromas Que Contam Histórias: Memórias de Mulheres em Uma Instituição de Longa Permanência para Idosos

Autores

  • Laiany Fagundes Mota
  • Carlos Idelfonso Cardoso Machado
  • Franciane Silva Cruz de Lima
  • Mara Goi

Palavras-chave:

asilo, oficina, conhecimento, intergeracional

Resumo

Alguns cheiros parecem ter o poder de nos levar para outro lugar. Um aroma pode trazer de volta uma lembrança da infância, uma pessoa querida, um quintal, uma receita antiga ou um momento que permanece vivo na memória. Foi a partir dessa percepção que se desenvolveu uma atividade com 30 mulheres idosas residentes no Asilo Nossa Senhora Medianeira, em Cachoeira do Sul-RS, buscando compreender quais aromas faziam parte de suas histórias e quais memórias poderiam surgir a partir deles. Todas as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), autorizando sua participação na atividade e o uso dos relatos para fins acadêmicos. A proposta teve como objetivo valorizar as participantes como mulheres que carregam conhecimentos, experiências e histórias construídas ao longo de suas vidas, muitas delas adquiridas por mães, avós e outras mulheres, por meio de receitas, plantas, ervas, formas de cuidado e costumes. A atividade foi desenvolvida a partir de uma abordagem qualitativa, participativa e baseada na escuta, buscando construir um espaço de confiança, no qual cada participante pudesse compartilhar suas experiências sem a preocupação de encontrar respostas certas ou erradas. O trabalho foi organizado em três etapas: acolhimento e sensibilização; exploração olfativa às cegas; e construção do Mapa Afetivo dos Aromas. Inicialmente, foi aplicado um questionário aberto para conhecer as participantes e identificar cheiros, plantas, ervas, temperos, lugares e lembranças significativas. Em seguida, foram apresentados, sem a identificação prévia, dez aromas relacionados ao cotidiano, à cultura alimentar, ao cuidado, às plantas e aos ambientes familiares: erva-mate, canela, alecrim, lavanda, citronela, jasmim, café, laranja, terra molhada e eucalipto. A pergunta O que esse cheiro faz você lembrar? possibilitou que as associações surgissem espontaneamente, envolvendo pessoas, lugares, situações e sentimentos. Após essa experiência, foi realizada uma breve contextualização científica sobre substâncias químicas voláteis, percepção olfativa e as relações entre olfato, cérebro, memória e emoções, aproximando o conhecimento científico dos saberes construídos no cotidiano. Ao longo da atividade, os aromas também se mostraram como caminhos para acessar experiências coletivas, territórios e conhecimentos transmitidos entre gerações. As narrativas das participantes revelaram que os saberes construídos pela experiência e compartilhados oralmente fazem parte de suas histórias e de seus modos de viver, permitindo reconhecer diferentes formas de produzir, guardar e transmitir conhecimentos. Nesse sentido, a atividade não buscou apenas identificar quais aromas despertavam lembranças, mas compreender as relações entre os cheiros, as pessoas, os lugares e os saberes presentes nessas memórias. A escuta das participantes permitiu que suas experiências ocupassem um lugar central na construção da atividade, valorizando suas histórias de vida e os conhecimentos que carregam consigo. Os resultados mostraram que os aromas despertaram lembranças de infância, família, escola, amizades, jardins, alimentos e lugares significativos. Café, eucalipto e jasmim apareceram entre os aromas mais associados às memórias, enquanto lembranças relacionadas a alimentos também surgiram espontaneamente, revelando histórias que ultrapassaram os aromas inicialmente previstos. As falas trouxeram recordações de rodas de mate, carneações, colheitas em regime de puxirão, relações de compadrio e conhecimentos propagados entre gerações. Também apareceram relatos sobre dificuldades materiais, a impossibilidade de estudar e a solidão vivenciada na instituição, mas, sobretudo, a satisfação de revisitar histórias e afetos que permaneciam vivos na memória. A partir dessas narrativas, foi construído um Mapa Afetivo dos Aromas, relacionando aromas, memórias, pessoas e territórios e evidenciando uma rede de afetos, conhecimentos e experiências presente nas histórias das participantes. O mapa possibilitou visualizar como uma mesma memória pode estar ligada a diferentes aromas, pessoas e lugares, revelando os cruzamentos entre histórias familiares, experiências de infância, relações de amizade, modos de vida e territórios. Como continuidade do projeto, está prevista uma oficina de elaboração de barrinhas aromáticas, utilizando os aromas e combinações mais significativos identificados no mapa. A proposta é que cada preparação represente não apenas um aroma, mas a materialização de uma memória, de um saber ou de uma experiência significativa, dando continuidade à articulação entre Ciência, memória, afetividade, cultura e produção de conhecimentos entre gerações.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Aromas Que Contam Histórias: Memórias de Mulheres em Uma Instituição de Longa Permanência para Idosos. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123531. Acesso em: 29 out. 2026.