Viver, Conviver e Cuidar em Liberdade: Relato de Experiência no Mental Tchê 2026

Autores

  • Nathalia Martins Medeiros
  • Letícia de Araújo Pinto
  • Liamara Denise Ubessi

Palavras-chave:

Cuidado, Saúde, Mental, Luta, Antimanicomial, Coletiva

Resumo

A saúde mental, compreendida em sua dimensão ampliada, relaciona-se às condições concretas de vida, aos vínculos sociais, ao território e às possibilidades de convivência em liberdade. Nesse contexto, a luta antimanicomial reafirma a necessidade de práticas de cuidado pautadas na autonomia, no protagonismo, na garantia de direitos e no reconhecimento da singularidade das diferentes formas de existência. Sob essa perspectiva, a XIX edição do Mental Tchê constituiu-se como espaço de encontro, diálogo e expressão dos usuários da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), fortalecendo a luta antimanicomial. Em vista disso, o presente trabalho objetiva relatar a experiência de uma acadêmica do curso de Farmácia durante sua participação no Mental Tchê 2026, refletindo sobre as relações estabelecidas com usuários, residentes em Saúde Mental Coletiva e trabalhadores da Rede de Atenção Psicossocial e suas contribuições para a compreensão do cuidado em saúde mental e da luta antimanicomial. Trata-se de um relato de experiência, de caráter descritivo e reflexivo, construído a partir das percepções e vivências da acadêmica, nos dias 29 e 30 de abril de 2026 em São Lourenço do Sul/RS. A participação ocorreu por meio de acompanhamento terapêutico cotidiano aos integrantes, envolvendo organização, alimentação, acompanhamento e participação nas atividades, proporcionando uma experiência compartilhada para além dos espaços formais da programação. Entre as experiências vivenciadas, destacou-se a permanência na Tenda do Afeto, espaço destinado à aproximação e à realização de atividades de costura, no qual momentos de diálogo, interação e produção artesanal favoreceram relações e trocas entre os sujeitos. Ademais, as vivências coletivas nos espaços da cidade, como por exemplo, a praia, constituíram-se como experiências de sociabilidade e ampliação das possibilidades de participação social, especialmente por apresentarem, para alguns usuários, o primeiro contato com esse ambiente. Por ocorrerem fora de seus territórios de origem, esses momentos possibilitam novas formas de interação e pertencimento, contribuindo para compreender o lazer, a circulação por diferentes espaços sociais como dimensões do cuidado extramuros e, consequentemente, do cuidado em liberdade. No último dia, a participação em uma atividade esportiva coletiva foi marcada por incentivo, apoio mútuo e manifestações de entusiasmo. Posteriormente, a apresentação artística realizada pelos usuários evidenciou diferentes formas de expressão e protagonismo, possibilitando reconhecer a singularidade dos sujeitos e suas diferentes maneiras de comunicar experiências, afetos e identidades por meio da arte. Ao longo da experiência, os momentos compartilhados favoreceram a construção de vínculos e permitiram compreender que o cuidado em saúde mental não se restringe aos procedimentos técnicos ou aos espaços institucionais, sendo também produzido nas relações, na escuta, no afeto, na arte, no lazer e na possibilidade de ocupar diferentes espaços sociais. A experiência possibilitou ainda problematizar o estigma e a desvalorização que atravessam os usuários da RAPS, evidenciando a necessidade de valorização dos serviços de base territorial como dispositivos fundamentais para o cuidado em liberdade e a garantia de direitos. Os resultados indicam que a participação no evento contribuiu para ampliar a compreensão da estudante acerca da saúde mental e deslocar perspectivas inicialmente marcadas por representações estigmatizantes, fortalecendo uma postura de reconhecimento, respeito e defesa dos direitos das pessoas em sofrimento psíquico. As repercussões da experiência transcenderam a dimensão acadêmica e profissional, alcançando a própria forma de compreender o outro, as relações e as práticas de cuidado. Nesse percurso, compreendeu-se que o cuidado não se produz apenas por meio de conhecimentos técnicos, mas também pela presença, pela escuta, pelo vínculo e pela disposição de estar com o outro. Assim, a experiência reafirma que defender a saúde mental e a luta antimanicomial é também defender a possibilidade de uma vida vivida com dignidade, liberdade e pertencimento.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Viver, Conviver e Cuidar em Liberdade: Relato de Experiência no Mental Tchê 2026. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123521. Acesso em: 26 out. 2026.