Corpo-território e (re)existência: Trajetória de Uma Mulher Indígena na Universidade e nos Movimentos Sociais
Palavras-chave:
Mulheres, indígenas, Corpo-território, Educação, superiorResumo
A presença de mulheres indígenas na universidade pública relaciona-se a uma trajetória coletiva de luta pelo direito à educação, pelo reconhecimento identitário e pela ocupação de espaços historicamente marcados pela exclusão. Nessa perspectiva, o corpo feminino indígena pode ser compreendido como o primeiro território a ser defendido, pois nele se inscrevem marcas do colonialismo, do patriarcado, do racismo e das diferentes formas de violência. Estar e permanecer na universidade ultrapassa, portanto, a dimensão individual, constituindo também uma forma de resistência, afirmação da presença indígena e reivindicação do direito de participar dos espaços de produção e circulação do conhecimento. Este trabalho parte da seguinte questão: como as experiências de ser mulher, indígena e estudante universitária em um contexto fronteiriço participam da construção de estratégias de resistência nos movimentos sociais? O objetivo é analisar, por meio de uma narrativa autobiográfica, como a vivência universitária e a atuação em movimentos sociais se relacionam com a produção de estratégias de resistência, pertencimento e participação política. Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter autobiográfico e crítico-reflexivo, construído a partir da trajetória de uma mulher indígena,estudante universitária em Uruguaiana/RS, município situado na fronteira entre Brasil e Argentina e inserido em uma região marcada por deslocamentos e relações com o Uruguai. A produção da narrativa foi articulada à experiência acumulada ao longo de aproximadamente dois anos de atuação e participação em movimentos sociais, bem como à aproximação com experiências comunitárias. As conversas reflexivas com mulheres, lideranças indígenas e participantes de ações coletivas complementam a narrativa. A análise foi orientada por perspectivas decoloniais e interseccionais, considerando a articulação entre gênero, identidade indígena, território, classe e experiências de opressão. Os resultados foram organizados em três dimensões relacionadas: corpo-território, participação nos movimentos sociais e presença indígena na universidade. Na primeira dimensão, a resistência manifesta-se na defesa do corpo-território diante das violências de gênero, do racismo e dos processos que buscam controlar, silenciar ou invisibilizar as mulheres indígenas. O corpo aparece não apenas como dimensão individual, mas como lugar de memória, ancestralidade, identidade e relação com a coletividade. Na segunda dimensão, a participação feminina nos movimentos sociais mostrou-se fundamental para a construção de redes de apoio, mobilização e enfrentamento das desigualdades, embora também seja atravessada pelo machismo e pela disputa por reconhecimento, voz e poder de decisão. Na terceira dimensão, o ingresso e a permanência na universidade foram compreendidos como atos políticos que questionam modelos hegemônicos de produção do conhecimento. A presença indígena no espaço acadêmico denuncia processos históricos de apagamento e afirma os saberes tradicionais como formas legítimas de conhecer, ensinar e aprender. Ao mesmo tempo, a experiência universitária revelou contradições entre o discurso institucional de inclusão e as dificuldades concretas de permanência, pertencimento e reconhecimento das identidades indígenas. As vivências também evidenciaram a importância das redes de solidariedade construídas entre movimentos sociais, universidades e comunidades, fortalecendo estratégias coletivas de enfrentamento às desigualdades. Nesse contexto, a fronteira não aparece apenas como delimitação geográfica, mas como território de encontros, conflitos, deslocamentos e articulações políticas. Os resultados correspondem a uma trajetória situada e não pretendem representar a totalidade das experiências das mulheres indígenas. Contudo, a narrativa permite relacionar vivências individuais a processos históricos e coletivos de colonialismo, racismo, sexismo e exclusão educacional. Conclui-se que resistir constitui um processo contínuo, enraizado no corpo, no território, na ancestralidade e na palavra. A presença de mulheres indígenas na universidade e nos movimentos sociais transforma experiências de dor e opressão em mobilização, produção de conhecimentos e luta por direitos. Para que a universidade se constitua efetivamente como espaço de (re)existência, não basta possibilitar o ingresso de estudantes indígenas; é necessário criar condições de permanência, reconhecer seus saberes e ampliar sua participação nas decisões institucionais. A trajetória analisada reafirma que as experiências individuais são atravessadas por lutas coletivas e que ocupar a universidade pode significar reivindicar reconhecimento, enfrentar o apagamento e produzir outras possibilidades de existência e transformação social.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Corpo-território e (re)existência: Trajetória de Uma Mulher Indígena na Universidade e nos Movimentos Sociais. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123516. Acesso em: 28 out. 2026.