Tecendo a Maloca: Saberes Ancestrais e Construção Coletiva
Palavras-chave:
Saberes, ancestrais, Interculturalidade, UniversidadeResumo
A implantação de uma Maloca em uma universidade pública ultrapassa a edificação de uma estrutura física, pois se relaciona à luta por representatividade, reconhecimento e valorização dos conhecimentos indígenas, historicamente marginalizados dos e nos espaços acadêmicos. Nesse sentido, a Maloca pode constituir um espaço de escuta e produção coletiva, aproximando a universidade das comunidades e contribuindo para o reconhecimento da pluralidade étnica e cultural. Este trabalho objetiva sistematizar o processo inicial de luta pela implantação de uma Maloca na Universidade Federal do Pampa, Campus Uruguaiana, destacando as estratégias de mobilização, as articulações estabelecidas e os aprendizados produzidos nessa caminhada. Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, desenvolvido no município de Uruguaiana/RS. O relato foi elaborado a partir das vivências e discussões realizadas durante um dos encontros de planejamento da proposta, com a ampliação da participação á diferentes sujeitos. Na ocasião foram definidas, responsabilidades e produzidos encaminhamentos coletivamente. Importa registrar que este encontro é efeito de um percurso iniciado nos anos 2020 por um estudante indígena, atualmente médico na comunidade indígena. Este momento é o efeito de muitos diálogos com populações da etnia Charrua, Guarani e dos estudantes da UNIPAMPA/Campus Uruguaiana. Foi promovido pelo projeto AfirmaSUS: Conexão de Saberes, do qual participam estudantes indígenas, quilombolas, pardos e negros. O encontro partiu da compreensão de que a criação de um espaço intercultural deve ser orientado pelo diálogo e pela escuta, evitando que sua concepção seja determinada exclusivamente por decisões institucionais, conhecimentos técnicos e de não indígenas. Foram debatidos aspectos relacionados à estrutura física, ao projeto arquitetônico, aos procedimentos institucionais e às atividades culturais e educativas que poderão ser realizadas no espaço. As discussões evidenciaram que a Maloca não deve ser concebida apenas como uma construção destinada a eventos pontuais, mas como um ambiente permanente de convivência, formação e circulação de conhecimentos. Entre os resultados iniciais desta caminhada, destaca-se a formação de uma rede de colaboração composta por integrantes da universidade, representantes de comunidades e profissionais de diferentes áreas. Foi acolhida a participação voluntária de um engenheiro e de uma arquiteta na elaboração do projeto técnico, enquanto um grupo de estudantes assumiu a responsabilidade pela redação da proposta e pelo acompanhamento dos trâmites administrativos junto à universidade. O encontro identificou desafios relacionados à obtenção de recursos, à elaboração do projeto arquitetônico e à necessidade de seguir garantindo a participação efetiva dos povos indígenas nas próximas etapas. A experiência demonstrou que a construção coletiva não se limita à reunião de diferentes pessoas, mas exige condições para que suas perspectivas sejam ouvidas e incorporadas às decisões. Embora a estrutura física ainda esteja em fase de planejamento, o processo de mobilização já produziu aproximações entre sujeitos e grupos que anteriormente desenvolviam suas ações de maneira pouco articulada. Também possibilitou compreender que a interculturalidade não ocorre apenas pela presença simultânea de diferentes identidades, mas requer presença na comunidade, diálogo e reconhecimento das desigualdades existentes entre os conhecimentos legitimados pela academia e os saberes ancestrais. A Maloca apresenta potencial para contribuir com a transformação das relações no ambiente universitário, desde que os povos indígenas participem de sua concepção e utilização. Por essa razão, os resultados apresentados devem ser compreendidos como iniciais, não permitindo ainda avaliar os efeitos da Maloca sobre as relações entre a universidade e as comunidades. Conclui-se que a etapa inicial de implantação evidenciou a importância da mobilização coletiva e da integração entre diferentes formas de conhecimento. A definição de responsabilidades, a participação voluntária de profissionais e a articulação com representantes de povos e comunidades constituíram avanços concretos para a continuidade da proposta. Mais do que um produto final, o próprio processo de planejamento mostrou-se uma experiência formativa, capaz de produzir encontros, questionar hierarquias de saber e poder e fortalecer relações entre a universidade e a sociedade. A continuidade do projeto preservará o protagonismo indígena e ampliará a participação das comunidades, evitando que a Maloca seja reduzida a um símbolo institucional sem vínculo efetivo com os povos que lhe atribuem sentido. Com as articulações e mobilização podemos mudar a realidade da Universidade. Assim, tecer a Maloca significa construir coletivamente não apenas uma estrutura, mas um espaço de memória, pertencimento, interculturalidade e valorização dos saberes ancestrais.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Tecendo a Maloca: Saberes Ancestrais e Construção Coletiva. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123515. Acesso em: 22 out. 2026.