Reciclando Conhecimentos e Práticas: Ação Extensionista em Associação de Coleta de Materiais para Sobrevivência

Autores

  • Gabriela Hubner
  • Adrian Gabriel de Oliveira
  • Rafaela Iandria Martinazzo Rodrigues
  • Tayrone Gustavo dos Reis Mariz
  • Liamara Denise Ubessi

Palavras-chave:

associativismo, determinantes, sociais, saúde, coletiva

Resumo

Os determinantes sociais da saúde (DSS) condições em que as pessoas nascem, vivem, trabalham e envelhecem exercem papel central na compreensão do processo saúde-doença de populações em situação de vulnerabilidade social, sendo fundamentais para orientar práticas de cuidado alinhadas aos princípios de universalidade, integralidade e equidade do Sistema Único de Saúde (SUS). A Associação de Catadores de Lixo Amigos da Natureza (ACLAN), localizada em Uruguaiana/RS, surgiu em 2009, idealizada por Maria Tugira da Silva Cardoso, com o objetivo de promover melhores condições de vida das pessoas coletadoras de materiais recicláveis do município. Estudantes do primeiro semestre do curso de Medicina, em disciplina de Saúde Coletiva, tiveram a oportunidade de realizar estágio observacional junto a esta instituição. A formação em medicina precisa contemplar diversas realidades sociais de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais vigentes. Deste modo, este trabalho objetiva descrever de forma analítica o vivenciado em uma ação extensionista junto uma associação que coleta materiais para sobrevivência. Trata-se de um relato de experiência sobre a vivência estudantil em ação de extensão na disciplina de Saúde Coletiva I do curso de Medicina da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), realizada nos meses de maio e junho de 2026, na interface universidade, serviços de saúde e comunidade. A associação reúne trabalhadores e trabalhadoras que atuam na coleta seletiva e triagem de materiais recicláveis, exercendo função ambiental e social relevante, possibilita o reaproveitamento de resíduos com potencial econômico para reutilização pela indústria, contribui para sobrevivência das pessoas associadas, também na redução da poluição de rios, solo e ar, e evita que materiais recicláveis sejam destinados a aterros e lixões, onde tendem a causar danos ambientais significativos, como ocorre com plásticos que chegam aos oceanos e provocam a morte de animais. Além da contribuição ambiental, a ACLAN exerce papel social importante na vida de seus associados, oferecendo auxílio no cuidado dos filhos e alimentação básica, benefícios dificilmente alcançados caso exercessem a atividade de forma individual. Ainda assim, os coletadores enfrentam condições de trabalho precárias, renda inferior a um salário mínimo e barreiras significativas de acesso aos serviços de saúde, como incompatibilidade entre a jornada de trabalho e o horário de funcionamento das unidades de saúde, longas filas de espera e baixa cobertura vacinal fatores agravados por moradia em locais sem saneamento básico adequado, que interfere nas suas condições de saúde e receio em relação ao sistema de saúde. Soma-se a isso o fato de que a própria atividade de coleta constitui um fator de risco sanitário, uma vez que o contato constante com resíduos expõe esses trabalhadores a vetores de doenças, substâncias nocivas e materiais perfurocortantes. Esse conjunto de fatores resulta em um padrão de utilização dos serviços centrado em atendimentos de urgência, em detrimento do cuidado preventivo e continuado. A atividade de extensão foi feita em conjunto com a coordenação da ACLAN e baseando-se nas capacitações dos profissionais da saúde que são responsáveis pelo serviço itinerante "Carreta da saúde", realizada na ACLAN no bairro Cidade Nova, onde foram atendidos 13 associados, sendo fornecidos de orientações de saúde, aferição de pressão, vacinação e medição da glicemia. Todos os participantes receberam atendimento, acompanhados de orientações individuais sobre mudança de hábitos, considerando as condições de vida. O farmacêutico avaliou os usuários que necessitavam de continuidade do tratamento. As orientações realizadas pelo enfermeiro abrangeram principalmente alimentação saudável, controle do peso, prática de atividade física, monitoramento de pressão arterial e glicemia, e uso correto de medicamentos. Os atendimentos foram marcados por escuta ativa e abordagem acolhedora, respeitando o contexto de vida dos participantes. A experiência junto à ACLAN evidenciou a influência dos determinantes sociais, ambientais e ocupacionais sobre o processo saúde-doença das pessoas coletoras de materiais recicláveis, destacando barreiras que dificultam o acesso à atenção básica e favorecem a busca tardia por serviços de saúde. A utilização da Carreta da Saúde demonstrou ser uma estratégia efetiva para aproximar o cuidado dessa população, ampliando o acesso e fortalecendo os princípios de universalidade, integralidade e equidade do SUS. A ação também proporcionou aos estudantes de medicina uma vivência concreta sobre as desigualdades em saúde, reforçando a importância de práticas em novos territórios, da atuação multiprofissional e da articulação entre universidade, serviços de saúde e comunidade. Conclui-se que iniciativas dessa natureza podem contribuir para a promoção da saúde, prevenção de agravos e fortalecimento do vínculo com populações socialmente vulnerabilizadas.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Reciclando Conhecimentos e Práticas: Ação Extensionista em Associação de Coleta de Materiais para Sobrevivência. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123495. Acesso em: 24 out. 2026.