Alimentação, Território e Desigualdades: Uma Experiência do Afirmasus em Itaqui

Autores

  • Lauana Gomes
  • Fabiane Martins da Silva
  • Jassana Pereira Godoi
  • Carlos Henrique Rios Trindade
  • Nádia Rosana Fernandes de Oliveira
  • Lana Carneiro Almeida

Palavras-chave:

Alimentação, Território, Educação, saúde

Resumo

A alimentação é atravessada por condições econômicas, sociais, culturais e territoriais que influenciam o acesso aos alimentos, os modos de preparo, as tradições familiares e as possibilidades de escolha no cotidiano. Nesse sentido, compreender as experiências alimentares das comunidades exige considerar não apenas os alimentos consumidos, mas também as condições concretas em que as pessoas vivem, trabalham, estabelecem vínculos e cuidam de sua saúde. A relação com a alimentação envolve, ainda, conhecimentos transmitidos entre gerações, práticas de cuidado, formas de organização da rotina e possibilidades distintas de acesso aos estabelecimentos comerciais. Este trabalho teve como objetivo compreender como dois bairros de Itaqui diferem em relação aos hábitos alimentares, ao acesso aos alimentos e às práticas cotidianas de cuidado, a partir de atividades desenvolvidas pelo Projeto Alimentando a Diversidade no SUS, vinculado ao Programa AfirmaSUS do Ministério da Saúde. Trata-se de um relato de experiência extensionista, de abordagem qualitativa, construído a partir de rodas de conversa e observações realizadas no primeiro semestre de 2026 nos bairros Vila Nova e Ênio Sayago. As atividades foram conduzidas por bolsistas do projeto com participantes do Projeto Saúde nos Bairros vinculados às Unidades de Saúde da Família dos referidos bairros. As rodas de conversa buscaram compreender como se organiza a alimentação no dia a dia, quais dificuldades são encontradas para manter uma alimentação considerada adequada, quais alimentos fazem parte das tradições familiares, quais são utilizados em práticas de cuidado, como ocorre o acesso à alimentação em cada localidade e quais vulnerabilidades alimentares são percebidas pelas participantes. Os registros foram sistematizados em diários de campo e analisados de forma descritiva e comparativa, considerando as aproximações e diferenças observadas entre os territórios. Os resultados demonstraram a relevância das rodas de conversa como espaços de diálogo, escuta e produção compartilhada de conhecimentos, além de evidenciarem diferenças na forma como as participantes vivenciam a alimentação em cada território. No bairro Vila Nova, onde participaram oito mulheres, todas com idade superior a 50 anos, os relatos evidenciaram maior recorrência de dificuldades relacionadas ao acesso aos alimentos comercializados no bairro, especialmente em razão da percepção de preços mais elevados. Também foram mencionadas limitações financeiras para a manutenção de uma alimentação variada e redução ou interrupção do consumo de determinados alimentos diante da elevação dos preços. As participantes relataram ainda dificuldades relacionadas ao trabalho, às responsabilidades familiares e à organização da alimentação cotidiana, além do uso de hortas domésticas e plantas medicinais como práticas de cuidado e preservação de saberes comunitários. No bairro Ênio Sayago, onde participaram 21 mulheres, também com idade superior a 50 anos, as participantes relataram maior facilidade de acesso aos estabelecimentos comerciais e não apresentaram, durante a roda, dificuldades financeiras relacionadas à alimentação com a mesma intensidade observada na Vila Nova. Essa diferença pode estar relacionada às características territoriais e à localização dos estabelecimentos comerciais, embora não seja possível estabelecer relação causal a partir das atividades realizadas. As experiências nos dois bairros mostraram que as práticas alimentares são construídas em diálogo com as condições materiais, os vínculos familiares, os saberes locais e as possibilidades de circulação pelo território. Conclui-se que as rodas de conversa possibilitaram reconhecer diferentes experiências alimentares e condições de acesso aos alimentos nos territórios, evidenciando que as práticas alimentares não dependem apenas de escolhas individuais, mas também de renda, preços, localização, responsabilidades familiares e formas de organização da vida cotidiana. A experiência reafirma a roda de conversa como estratégia de escuta, produção compartilhada de conhecimentos e aproximação entre universidade, serviços de saúde e comunidade, contribuindo para o planejamento de ações de cuidado e educação em saúde mais sensíveis às especificidades territoriais.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Alimentação, Território e Desigualdades: Uma Experiência do Afirmasus em Itaqui. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/123490. Acesso em: 28 out. 2026.