Educação Ambiental Crítica nos Projetos Pedagógicos de Ciências Biológicas dos Ifs Gaúchos

Autores

  • Paula Terezinha Oliveira da Silva
  • Edward Frederico Castro Pessano
  • Marcus Vinicius Querol

Palavras-chave:

Análise, Curricular, Bioma, Pampa, Formação, Docente

Resumo

A presença da Educação Ambiental (EA) nos currículos brasileiros está respaldada pela Lei n.º 9.795/1999 (PNEA) e pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNEAs - Resolução CNE/CP n.º 2/2012), que defendem abordagens transversais na formação básica e superior. Mesmo assim, a leitura dos Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) demonstra conflitos entre a transversalidade legal e disciplinas específicas isoladas. Essa questão é urgente no Rio Grande do Sul (RS), diante de crises socioambientais como as enchentes históricas de 2024, mostrando que o ensino de Biologia não pode ficar limitado à técnica. É preciso formar docentes capazes de relacionar temas biológicos às dimensões políticas do colapso ecológico, além de seus efeitos sociais e econômicos, promovendo justiça socioambiental. Além disso, o Bioma Pampa, que ocupa mais de 60% do RS, perde cobertura vegetal e continua pouco representado nos currículos nacional e regional. O resultado é que muitos graduandos saem com conhecimento ecológico e sociocultural superficial sobre o lugar onde irão trabalhar. Nesse cenário, os Institutos Federais (IFs) têm responsabilidade social importante na interiorização e democratização do ensino superior gaúcho. Este trabalho apresenta um recorte de pesquisa, desenvolvido conforme projeto de pesquisa do PPgECi/Unipampa em 2026, voltado ao mapeamento da organização curricular da EA nos PPCs das licenciaturas presenciais em Ciências Biológicas dos IFs gaúchos, analisando-se a carga horária, as ementas e as macrotendências político-pedagógicas presentes nesses documentos. A hipótese é que a dimensão crítica da EA ainda é incipiente, enquanto predominam visões conservacionistas e pragmáticas. O referencial teórico reúne a pedagogia crítica de Paulo Freire, as três macrotendências da EA brasileira discutidas por Layrargues e Lima, a perspectiva decolonial de Marisol de la Cadena e os estudos de Nóvoa e Tardif sobre saberes e identidade docente. A pesquisa foi aplicada, qualitativa e organizada como estudo de caso múltiplo, com base documental. O corpus inclui matrizes e ementas de nove PPCs de cursos presenciais vigentes em 2026: campi do IFFar (Alegrete, Júlio de Castilhos, Panambi, Santa Rosa, Santo Augusto e São Vicente do Sul), do IFRS (Sertão e Vacaria) e do IFSul (Pelotas-CaVG). A análise combinou o mapeamento qualitativo e quantitativo dos componentes com a Análise Textual Discursiva (ATD) de Moraes e Galiazzi, aplicada de forma recursiva. Foram realizadas a unitarização e codificação, a categorização a priori e emergente e a elaboração de metatextos argumentativos. Os resultados mostram currículos heterogêneos, principalmente na carga horária destinada ao tema. Todos afirmam que a EA é obrigatória e transversal, porém essa transversalidade não apresenta medidas nem estratégias pedagógicas claras, ficando o controle restrito a disciplinas específicas, o que pode fragmentar o conhecimento e dificultar o planejamento interdisciplinar dos licenciandos. Além disso, a macrotendência crítica ainda aparece de forma incipiente, destacando-se somente em três cursos: Alegrete (IFFar), Vacaria (IFRS) e Pelotas-CaVG (IFSul), que apresentam ementas voltadas aos conflitos socioambientais e às relações de poder. Nos outros currículos, predominam a macrotendência conservacionista, centrada em atitudes individuais e numa preservação pouco politizada, e a pragmática, ligada ao desenvolvimento sustentável tratado de modo técnico. Destaca-se também a reduzida presença do Bioma Pampa. O meio ambiente costuma ser apresentado de forma genérica ou a partir de ecossistemas divulgados pela mídia, distanciando o estudante do território, o que reforça uma forma de colonialidade do saber. Os cursos precisam, portanto, de uma organização curricular mais integrada e crítica. Propõe-se uma agenda em quatro frentes: reorganizar o currículo para diminuir a fragmentação; fortalecer a EA crítica, com base na ecologia política e na análise das relações de poder; aproximar os biomas do território, dando visibilidade ao Pampa e aos seus problemas; e criar redes de cooperação e pesquisa-ação com comunidades tradicionais e escolas básicas. Essas atualizações podem auxiliar as instituições analisadas a cumprir efetivamente sua função social: formar sujeitos críticos, capazes de participar da construção de uma sociedade mais justa e sustentável.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Downloads

Publicado

2026-10-02

Como Citar

Educação Ambiental Crítica nos Projetos Pedagógicos de Ciências Biológicas dos Ifs Gaúchos. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122693. Acesso em: 23 out. 2026.