Entre Ausências e Referências: Gênero e Docência Feminina na Educação Física Escolar
Palavras-chave:
Feminização, docência, Relações, gênero, Formação, profissionalResumo
A Educação Física escolar foi historicamente atravessada por concepções de corpo, desempenho e participação marcadas pelas relações de gênero. Em diferentes períodos, determinadas práticas corporais foram associadas ao masculino, enquanto meninas e mulheres tiveram suas possibilidades de participação limitadas ou secundarizadas. Essas marcas também se expressam nas trajetórias escolares e nas referências docentes, influenciando a percepção sobre quem pode ensinar, praticar e ocupar os espaços da Educação Física. Este trabalho tem como objetivo analisar, por meio de um relato autobiográfico, como as marcas de gênero e a presença de uma professora contribuíram para reconstruir a percepção de uma acadêmica sobre as práticas corporais e o pertencimento das mulheres nas aulas. Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, de caráter autobiográfico, construído a partir da reflexão sobre memórias da infância, da adolescência e da formação acadêmica. A autobiografia foi utilizada como caminho metodológico para revisitar experiências escolares, identificar mudanças na compreensão da Educação Física e relacionar acontecimentos individuais a construções sociais de gênero. Durante a infância e parte da adolescência, a reduzida presença de professoras de Educação Física contribuiu para uma percepção limitada sobre quem poderia ocupar esse lugar profissional. Nas aulas, os meninos assumiam maior protagonismo nas atividades esportivas, enquanto as meninas eram frequentemente direcionadas a posições secundárias ou permaneciam afastadas das modalidades valorizadas. Essas experiências apresentavam o espaço esportivo como um território predominantemente masculino, no qual a participação feminina parecia menos reconhecida. Naquele momento, essas diferenças eram percebidas como parte natural das aulas, e não como resultado de expectativas sociais sobre os corpos, as habilidades e os interesses de meninas e meninos. Uma transformação ocorreu no Ensino Médio, a partir do contato com uma professora de Educação Física que se tornou referência para a autora e outras alunas. Sua atuação buscava promover a participação das meninas, contemplar diferentes interesses e organizar aulas nas quais os corpos femininos também fossem reconhecidos como pertencentes às práticas corporais. A importância dessa professora não estava somente no fato de ser mulher, mas nas escolhas pedagógicas, na maneira como mediava as relações e nas condições que construía para ampliar a participação. Sua presença permitiu visualizar uma mulher ocupando com legitimidade o lugar da docência, enquanto sua prática demonstrou que as aulas poderiam ser organizadas de outra maneira. Com o ingresso na graduação, essa experiência adquiriu novos sentidos. O contato com estudos sobre corpo, gênero, educação e práticas corporais possibilitou compreender que a distribuição desigual dos espaços, das oportunidades e do protagonismo não decorre de diferenças naturais entre homens e mulheres. Trata-se de uma produção social e cultural que pode ser reproduzida, questionada ou transformada pelas práticas pedagógicas. A formação acadêmica também permitiu reconhecer que a representatividade docente não atua isoladamente. A presença de professoras pode ampliar referências e possibilidades de identificação, mas a transformação das aulas também depende do planejamento, da mediação, da problematização dos estereótipos e da criação de condições equitativas de participação. A análise autobiográfica evidenciou três momentos: a naturalização inicial das desigualdades de gênero, o encontro com uma professora que rompeu parte dessas referências e a compreensão crítica construída na graduação. Esse percurso mostrou que as experiências escolares participam da formação de concepções sobre profissão, corpo e pertencimento. Também revelou que uma prática docente pode produzir marcas duradouras ao possibilitar que estudantes se reconheçam em espaços dos quais antes se percebiam afastadas. Contudo, a experiência individual não permite afirmar que as desigualdades foram superadas, pois estereótipos e assimetrias ainda podem estar presentes em diferentes contextos. Conclui-se que a professora encontrada no Ensino Médio constituiu uma referência para a reconstrução da relação da autora com a Educação Física e com a possibilidade de mulheres ocuparem esse campo. A autobiografia permitiu compreender que representatividade e prática pedagógica se articulam na produção do pertencimento: não basta estar presente, é necessário construir condições para que outras mulheres também participem, aprendam e sejam reconhecidas. A experiência reafirma a docência como espaço capaz de questionar marcas de gênero e ampliar a participação feminina nas práticas corporais e na profissão.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Entre Ausências e Referências: Gênero e Docência Feminina na Educação Física Escolar. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122666. Acesso em: 27 out. 2026.