Corpo, Percepção e Experiência: Possibilidades Pedagógicas na Educação Física Escolar
Palavras-chave:
Acessibilidade, Percepção, corporal, Inclusão, EscolarResumo
A Educação Física escolar constitui um espaço de experiências corporais que possibilita aos estudantes diferentes formas de perceber e relacionar-se com o próprio corpo, com outras pessoas e com o ambiente. Nessa perspectiva, o corpo não se restringe à dimensão biológica, pois também é constituído pelas experiências, relações sociais e condições culturais. Atividades que modificam temporariamente as formas habituais de utilizar o espaço podem estimular reflexões sobre autonomia, comunicação, cooperação e barreiras à participação. Entretanto, precisam ser conduzidas com cuidado para não apresentar uma restrição momentânea como reprodução da experiência de pessoas com deficiência. Este trabalho tem como objetivo relatar e refletir sobre uma experiência envolvendo corpo, percepção e deslocamento pelo espaço escolar, desenvolvida no âmbito do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), em uma escola da região central de Uruguaiana/RS. O estudo apresenta abordagem qualitativa e caracteriza-se como relato de experiência, elaborado a partir da observação das atividades e das falas compartilhadas pelos estudantes nas conversas posteriores. A atividade realizada não teve como finalidade simular a experiência de uma pessoa com deficiência visual, mas problematizar a percepção corporal, orientação espacial, comunicação e barreiras presentes nos deslocamentos. Participaram duas turmas do 7º ano, uma turma do 6º ano e, mediante adaptação, uma turma do 1º ano do Ensino Fundamental. A intervenção envolveu deslocamentos e circuitos motores realizados com restrição temporária da visão, sempre com acompanhamento e orientações de segurança. Inicialmente, os estudantes foram vendados e conduzidos coletivamente da sala até uma das quadras. Na primeira turma do 7º ano, em razão do tempo disponível, a intervenção compreendeu o deslocamento e uma conversa sobre as percepções provocadas. Na segunda turma do 7º ano e no 6º ano, após o percurso, os estudantes construíram um circuito motor e realizaram-no em duplas. Um integrante permanecia vendado e o outro assumia a função de guia, utilizando somente orientações verbais. Em seguida, as funções eram alternadas. Para o 1º ano, o circuito foi previamente organizado e as orientações foram simplificadas. Ao final, foram promovidas conversas sobre as sensações, as estratégias utilizadas, a confiança no colega e as condições de circulação na escola. Os resultados foram organizados em três eixos: percepção corporal e espacial; comunicação, cooperação e confiança; e problematização das barreiras. No primeiro eixo, os estudantes relataram insegurança, dificuldade para reconhecer o percurso e necessidade de deslocar-se mais lentamente, mesmo conhecendo o caminho até a quadra. Alguns também demonstraram dificuldade para identificar o local de chegada sem utilizar a visão. Essas manifestações possibilitaram discutir como a percepção do espaço é construída pela articulação entre informações corporais e sensoriais e como a alteração de uma referência habitual modifica as maneiras de caminhar, orientar-se e tomar decisões. No segundo eixo, observou-se que as atividades em duplas exigiram atenção, clareza na comunicação e responsabilidade com a segurança do colega. Alguns estudantes apresentaram dificuldade para oferecer comandos precisos. Ao longo do circuito, foi necessário ajustar a linguagem, indicar direções e avisar sobre obstáculos. A confiança foi construída pela escuta, pelo cuidado e pelo cumprimento dos acordos estabelecidos. No terceiro eixo, os estudantes foram convidados a refletir sobre obstáculos, trajetos e condições de circulação. De modo geral, manifestaram percepção negativa quando questionados sobre a inclusão na escola, relacionando suas respostas às dificuldades encontradas. Essas falas foram compreendidas como uma reflexão inicial sobre barreiras e condições de circulação observadas pelos estudantes. Um diagnóstico dessa natureza exigiria critérios técnicos e a participação de pessoas com deficiência na análise dos espaços e das condições de acesso. Para os bolsistas, a intervenção favoreceu reflexões sobre segurança, adaptação das orientações e adequação da proposta às características e ao tempo de cada turma. Conclui-se que atividades relacionadas à percepção corporal podem ampliar as possibilidades pedagógicas da Educação Física quando acompanhadas de diálogo e problematização. A experiência favoreceu reflexões sobre corpo, ambiente, comunicação, cooperação e barreiras à participação. Também evidenciou que propostas relacionadas à inclusão precisam evitar generalizações e ser desenvolvidas com responsabilidade, reconhecendo que a acessibilidade depende de condições sociais, pedagógicas, comunicacionais e estruturais.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Corpo, Percepção e Experiência: Possibilidades Pedagógicas na Educação Física Escolar. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122625. Acesso em: 28 out. 2026.