Educação Física, Escuta e Diálogo na Mediação de Conflitos Escolares
Palavras-chave:
Educação, Física, escolar, Rodas, conversa, ConvivênciaResumo
Historicamente, a Educação Física escolar esteve associada à aprendizagem de gestos técnicos e esportivos, com ênfase na dimensão procedimental das práticas corporais. Entretanto, compreendida a partir de uma perspectiva crítica, pode constituir-se também como espaço de escuta, reconhecimento e construção coletiva de conhecimentos e formas de convivência. A dinâmica das aulas favorece a manifestação de conflitos, frustrações e dilemas sociais que atravessam a vida dos estudantes, tornando visíveis situações relacionadas ao bullying, às desigualdades de gênero, à agressividade, à participação e às relações interpessoais. Nesse contexto, o conflito não deve ser entendido somente como indisciplina a ser controlada ou punida, mas como expressão de experiências e vulnerabilidades que podem ser problematizadas pedagogicamente. Este trabalho teve como objetivo relatar e analisar a utilização sistemática de rodas de conversa nas aulas de Educação Física como estratégia de escuta ativa, mediação de conflitos e fortalecimento da convivência escolar. Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa, desenvolvido no primeiro semestre de implantação do turno integral em uma escola municipal localizada em uma região periférica e afastada do centro de Uruguaiana, Rio Grande do Sul. A experiência ocorreu com uma turma de 9º ano, no contexto do projeto Escola Viva! Comunidade Ativa. A implantação do turno integral reuniu, em uma mesma sala, estudantes anteriormente distribuídos em diferentes turmas, modificando grupos de amizade e aproximando alunos que já apresentavam conflitos entre si. Eram frequentes discussões, comentários inadequados, ofensas, episódios de agressividade e conflitos originados fora da escola, os quais interferiam na convivência e no desenvolvimento das atividades pedagógicas. Além disso, a professora de Educação Física havia ingressado na instituição no mesmo período e encontrava-se em processo de aproximação e construção de vínculos com a turma. Diante dessa realidade e dos relatos de professores de outros componentes curriculares, foram inseridas rodas de conversa na rotina das aulas, realizadas durante alguns minutos antes do início das práticas corporais. Nesses momentos, os estudantes eram convidados a falar sobre situações que lhes causavam incômodo, conflitos ocorridos dentro ou fora da escola e questões consideradas relevantes para a convivência do grupo, em um ambiente organizado para favorecer a fala, a escuta e o reconhecimento das experiências dos colegas. Desde a primeira roda de conversa, observaram-se aulas mais tranquilas, com redução dos conflitos e maior disponibilidade dos estudantes para participar das atividades. Ao longo da experiência, também foram percebidas diminuições no uso de apelidos pejorativos, nas ofensas e nos comportamentos agressivos, além de avanços na união da turma e na participação coletiva. As situações compartilhadas permitiram problematizar constrangimentos éticos, refletir sobre os efeitos das atitudes na vida dos colegas e estimular posturas de respeito, compreensão e empatia. Professores de outros componentes curriculares relataram mudanças no comportamento dos estudantes após as intervenções, indicando que as repercussões do diálogo não se restringiram às aulas de Educação Física. A experiência evidenciou que a escuta atenta possibilita ao docente compreender aspectos que, sem um espaço de diálogo, poderiam ser interpretados apenas como comportamentos inadequados. Também demonstrou que a mediação não significa ausência de orientação docente, mas a construção de uma relação equilibrada entre diretividade, liberdade, responsabilização e participação dos estudantes. Conclui-se que a sistematização das rodas de conversa contribuiu para transformar conflitos em oportunidades de aprendizagem ética e para consolidar as aulas como ambiente acolhedor e seguro. Ao articular práticas corporais, diálogo e reconhecimento recíproco, a Educação Física amplia sua função pedagógica, ultrapassa os limites da quadra e contribui para a formação de sujeitos críticos, autônomos e capazes de participar da construção de uma convivência escolar mais respeitosa e democrática.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Educação Física, Escuta e Diálogo na Mediação de Conflitos Escolares. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122582. Acesso em: 23 out. 2026.