Do tchê Ao farmar Aura: Repertórios Linguísticos na Criação de Narrativas

Autores

  • Fernanda Dias da Rosa
  • Kellen Camila Possebon Friedrich
  • Elenúcia Maciel Severo
  • Cristiano Galafassi
  • Claudia Camerini Correa Perez

Palavras-chave:

Cultura, digital, Produção, Textual, PIBID

Resumo

As práticas de linguagem contemporâneas são atravessadas pelas interações em ambientes digitais, nos quais gírias, expressões e outros usos linguísticos passam a integrar o repertório comunicativo dos estudantes. Considerando que esses usos fazem parte de suas experiências cotidianas, a escola pode incorporá-los como ponto de partida para promover reflexões sobre língua, cultura digital, autoria e produção textual. Este trabalho objetiva relatar uma experiência desenvolvida no âmbito de um programa de iniciação à docência (PIBID) com uma turma de 8º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública, articulando repertórios linguísticos presentes no cotidiano dos estudantes à criação de narrativas. A proposta, de caráter descritivo, foi organizada como uma sequência didática em três etapas. Na primeira, realizou-se uma dinâmica de identificação de palavras e expressões empregadas pelos estudantes em redes sociais, jogos, aplicativos e interações cotidianas. Cada participante elaborou um glossário contendo cinco palavras ou expressões, registrando seus significados, exemplos de uso e formas alternativas de expressar a mesma ideia. Na segunda etapa, o repertório produzido foi retomado em uma atividade de escrita criativa, na qual os estudantes elaboraram uma narrativa utilizando as cinco palavras ou expressões na mesma ordem em que haviam sido registradas, preservando a coerência e o sentido de cada uma no contexto da história. Na terceira etapa, cada estudante recebeu aleatoriamente um personagem acompanhado de uma breve descrição e precisou reescrever sua narrativa, incorporando-o ao enredo. Os resultados foram construídos a partir das observações em sala, dos diários de bordo das bolsistas, da análise dos glossários e da leitura reflexiva das narrativas. Participaram da elaboração do glossário 23 estudantes e, destes, 18 realizaram a produção narrativa; ausências e a não adesão de alguns participantes à escrita reduziram a participação nas etapas seguintes. Durante a construção do glossário, observou-se elevado envolvimento da turma, especialmente porque a proposta incorporava expressões pertencentes ao cotidiano dos próprios estudantes. Foram registradas gírias e expressões regionais, como tchê, bah, chinelão e atucanado, termos em língua inglesa, como six seven, e expressões associadas às redes sociais, entre elas farmar, farmar aura e delulu. Observou-se dificuldade em definir algumas expressões regionais utilizadas cotidianamente, enquanto os significados e contextos de uso das gírias provenientes da internet eram explicados com maior facilidade e naturalidade. O interesse em explicar essas expressões e fazer com que fossem compreendidas pela equipe responsável indicou um movimento de valorização do próprio repertório, como se os estudantes convidassem os adultos presentes a conhecer parte de seu universo linguístico e digital. Esse processo foi acompanhado por maior engajamento, compartilhamento de experiências e sinais de aproximação entre estudantes e equipe pedagógica. Na produção das narrativas, entretanto, a exigência de empregar as cinco expressões na ordem previamente estabelecida mostrou-se desafiadora. Parte dos estudantes precisou reescrever trechos, alterar o desenvolvimento da história ou utilizou as palavras fora da sequência proposta. A inclusão de um personagem específico, na etapa final, ampliou a complexidade da tarefa, pois exigiu a reelaboração do texto e a adequação do novo elemento ao contexto narrativo. O conhecimento prévio da turma, construído ao longo do acompanhamento pedagógico, permitiu reconhecer diferentes níveis de familiaridade com práticas de leitura e escrita. Entre os estudantes que demonstravam maior desenvoltura nessas práticas, observaram-se maior facilidade para lidar com as restrições e narrativas mais articuladas; entre aqueles que apresentavam dificuldades recorrentes de leitura e escrita, as limitações da atividade constituíram barreiras mais evidentes à organização de uma sequência lógica. Comportamentos relacionados ao planejamento e à ordenação das ideias foram percebidos principalmente entre estudantes que elaboraram rascunhos antes da versão final; na maioria das produções, contudo, predominou a tentativa de reunir as palavras de modo que adquirissem sentido, sem registro explícito de planejamento prévio. Conclui-se que a aproximação entre escola e repertório linguístico dos estudantes pode favorecer pertencimento, engajamento e participação, mas não elimina os desafios envolvidos na passagem de usos linguísticos espontâneos para formas mais estruturadas de escrita. A experiência evidenciou que valorizar os repertórios presentes no cotidiano dos estudantes pode aproximá-los das práticas de produção textual e, simultaneamente, tornar visíveis diferentes necessidades de mediação para o desenvolvimento da escrita, da coerência narrativa e do planejamento textual.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Do tchê” Ao farmar Aura”: Repertórios Linguísticos na Criação de Narrativas. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122552. Acesso em: 1 nov. 2026.