Literatura, Voz e Transformação: Estágio com Olhos Dágua

Autores

  • Willian Caetano de Souza
  • Denise Aparecida Moser

Palavras-chave:

Alunos, Estágio, Língua, Portuguesa

Resumo

O período de estágio supervisionado representa um momento fundamental na formação de educadores, estabelecendo uma conexão entre o conhecimento teórico e a prática real, como apontado por Freire e Libâneo. As atividades foram realizadas na EMEF Professora Maria Aparecida do Nascimento, situada na Cidade Tiradentes, em São Paulo, uma área marcada por desafios socioeconômicos que impactam diretamente o processo educacional. A instituição atende aproximadamente 907 estudantes e estrutura suas ações com base na Lei de Diretrizes e Bases, na Base Nacional Comum Curricular e no Currículo da Cidade de São Paulo, incentivando uma gestão participativa e uma abordagem focada na educação integral. O estágio, com duração total de 30 horas de aula, envolveu turmas do 9º ano de Língua Portuguesa, com tempo equitativo dedicado à observação e à regência. Durante a fase de observação, foi realizada uma análise do ambiente escolar, do desempenho da professora regente e do perfil dos alunos, por meio de roteiros, entrevistas e um questionário aplicado a 70 estudantes. A maioria dos alunos tem entre 14 e 15 anos, reside com os pais e tem acesso à internet de maneira ampla, porém demonstra um repertório literário limitado: 80% deles enfrentam barreiras na elaboração de textos e 70% na leitura de obras literárias. Eles preferem métodos de aprendizado que incluam jogos, investigações e discussões em grupo, embora 60% acreditem que a habilidade de escrita seja algo inerente a um "dom natural". A educadora, com 15 anos de atuação na rede e moradora da própria comunidade, baseia seu trabalho na concepção da linguagem como uma manifestação social, explorando gêneros como microcontos e priorizando a leitura conjunta, mas se depara com obstáculos como a indisciplina e limitações de infraestrutura. A regência foi planejada a partir dessas informações diagnósticas, com foco principal na obra Olhos dÁgua, de Conceição Evaristo. O objetivo foi propor atividades de leitura, análise e criação de microcontos, relacionando a literatura a temas como ancestralidade, disparidade social, preconceito racial e valorização feminina. Foram sugeridas ações como um debate inicial sobre o respeito às mulheres, a leitura compartilhada de passagens da obra, a análise das escolhas lexicais e uma oficina de produção textual colaborativa, estruturadas em torno de eixos temáticos que exploram o matriarcado e a exclusão social, utilizando a ferramenta digital Padlet para registrar e compartilhar as reflexões. Os resultados obtidos demonstraram um maior engajamento dos estudantes quando os conteúdos dialogam com sua realidade cotidiana. A produção coletiva contribuiu para desmistificar a ideia de que a escrita é um dom inato, apresentando-a como um processo que demanda planejamento e revisão. Observou-se também um avanço no raciocínio crítico e na empatia dos alunos, ainda que alguns continuassem com desafios de atenção, necessitando de uma mediação contínua. Este período de estágio permitiu entender que lecionar em cenários de fragilidade exige uma conduta ética, tato e uma ligação contínua entre o conhecimento teórico e a aplicação prática. Tornou-se evidente que o ensino da Língua Portuguesa, quando baseado em métodos adaptados ao contexto, participativos e relevantes, não apenas aprimora competências linguísticas, mas também auxilia na construção de indivíduos com senso cívico e capacidade de análise. A experiência de estágio desempenhou de forma eficaz sua função de desenvolvimento, capacitando o aspirante a professor a lidar com as diferenças presentes nas instituições de ensino públicas, reafirmando o papel vital da educação como ferramenta para mudanças na sociedade.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Literatura, Voz e Transformação: Estágio com Olhos D’água. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122531. Acesso em: 2 nov. 2026.