A Falsa Simetria no Jornalismo: Cobertura do Pl da Misoginia e Disputa de Representações
Palavras-chave:
Desinformação, Violência, Simbólica, Ética, MidiáticaResumo
Um dos maiores desafios da atualidade é entender como o jornalismo tem coberto e lidado com o avanço da extrema-direita e a massificação da desinformação. O presente estudo analisa a cobertura midiática do embate legislativo em torno do Projeto de Lei da Misoginia (PL 896\2023), focando na disputa narrativa entre duas figuras opostas: a deputada federal Erika Hilton, representante da identidade política queer e da resistência institucional e o deputado federal Nikolas Ferreira, que utilizou campanhas de fake news e o pânico moral para atacar o projeto e impedir o avanço da lei no plenário. Como problema de pesquisa, questionamos: como os enquadramentos jornalísticos do debate entre os deputados Erika Hilton e Nikolas Ferreira sobre o PL da Misoginia contribuíram para a personalização e a despolitização da cobertura legislativa? Quando Nikolas Ferreira compartilhou em massa desinformação sobre o PL, Erika Hilton precisou acionar a Advocacia-Geral da União (AGU) para frear as inverdades. No entanto, a mídia hegemônica relatou esse cenário através da "falsa simetria" (o dois-ladismo). Para explicar essa falha ética, articulou-se uma base bibliográfica ordenada cronologicamente. Primeiro, compreendemos com o teórico cultural Raymond Williams (1969), que a cultura é um campo de batalha constante. É nessa arena que a misoginia, enquanto "cultura residual" que tenta se manter viva, colide com a "cultura emergente", representada pelas lutas por reconhecimento e identidade das figuras LGBTQIAPN+. Para cobrir esse choque, o jornalismo deveria buscar a verdade, mas adota o que a socióloga norte-americana Gaye Tuchman (1972), denomina como ritual estratégico da objetividade: o repórter apenas escuta os dois lados sem emitir juízo ou opinião sobre o fato, ignorando que, muitas vezes, um desses lados opera sob a lógica da desinformação deliberada. Essa postura, longe de ser neutra, atua como a violência simbólica descrita e articulada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu (1997), pois tende a legitimar enquadramentos discursivos de caráter desinformativo ou de retrocesso de direitos, equiparando-os à defesa de garantias civis. Esse cenário afeta diretamente a disputa pela representação - conceito central da obra do sociólogo jamaicano-britânico Stuart Hall (2006), já que a mídia, ao tratar a situação como mero bate-boca político, esvazia a denúncia e retira a legitimidade da deputada, silenciando sua representatividade. Aceitar essa construção narrativa limitante é cair no conformismo alertado pela filósofa brasileira Marilena Chauí (2011), que, em sua crítica à ideologia, aponta como naturalizamos o absurdo para manter a ordem vigente. E o mercado jornalístico tradicional lucra com isso: como explica o teórico da comunicação Muniz Sodré (2012), vivemos na sociedade do incitamento onde o espetáculo da polarização rende engajamento, alimentando nossas afinidades ideológicas em um ciclo de retroalimentação. Atualizando essa leitura, a jornalista e pesquisadora brasileira Sylvia Moretzsohn (2017), condena o empirismo ingênuo de redações que ainda tratam alegações comprovadamente falsas como fatos intocáveis em nome da isenção. Do ponto de vista metodológico, esta pesquisa caracteriza-se como exploratória, visto que se debruça sobre um fenômeno recente e em consolidação no cenário político-midiático brasileiro. O método adotado é a Análise de Enquadramento (Framing), aplicado de forma comparativa entre dois veículos digitais de perfis editoriais distintos: o portal UOL, como representante da mídia comercial hegemônica, e o portal especializado Congresso em Foco. O objetivo da abordagem comparativa é identificar como cada veículo estruturou gramaticalmente e conceitualmente o debate em torno do PL 896/2023, observando o peso atribuído aos discursos em disputa. Conclui-se que a permanência da falsa simetria na cobertura do PL 896/2023 transcende o mero lapso editorial, configurando-se como um reflexo das tensões políticas que moldam as rotinas jornalísticas contemporâneas. Ao equiparar discursos baseados em desinformação a divergências programáticas legítimas, o jornalismo de referência tende a atuar, de forma latente, como vetor de legitimação de narrativas extremistas. Os resultados sugerem que a aplicação estrita de uma neutralidade passiva não cumpre o papel de informar, mas concorre para a espetacularização do debate legislativo, gerando assimetrias que dificultam a visibilidade de pautas ligadas aos direitos humanos e à consolidação democrática.Downloads
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Publicado
2026-10-02
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
A Falsa Simetria no Jornalismo: Cobertura do Pl da Misoginia e Disputa de Representações. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122507. Acesso em: 25 out. 2026.