Narrativas Digitais Sobre Religiões de Matriz Africana: Uma Experiência Jornalística Sobre Intolerância Religiosa e Sacralização de Animais

Autores

  • Matheus Henrique Ribeiro Laurindo
  • Alciane Nolibos Baccin

Palavras-chave:

Narrativas, digitais, religiões, matriz, africana, racismo, religioso, jornalismo, interatividade

Resumo

As religiões de matriz africana fazem parte da formação histórica e cultural brasileira, preservando conhecimentos, práticas, símbolos e tradições transmitidos entre gerações. Apesar dessa importância, essas manifestações religiosas permanecem marcadas por processos de preconceito, intolerância e racismo religioso, que muitas vezes se relacionam ao desconhecimento de seus fundamentos e à reprodução de estereótipos. No Rio Grande do Sul, essa discussão apresenta particular relevância, uma vez que o estado possui a maior proporção de praticantes de religiões de matriz africana no Brasil, segundo dados do Censo 2022. A partir desse contexto, este trabalho apresenta o processo de produção de uma narrativa jornalística digital desenvolvida para a disciplina de Narrativas Digitais, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) e do Programa de Educação Tutorial (PET) - História da África. O projeto teve como objetivo abordar as religiões de matriz africana a partir da perspectiva de seus próprios praticantes, discutindo especialmente o preconceito religioso e a sacralização de animais em rituais. A produção foi realizada ao longo de aproximadamente dois meses e envolveu pesquisa documental, apuração jornalística, entrevistas, observação de atividades religiosas, produção fotográfica e elaboração de reportagens. O trabalho de campo foi realizado junto a um terreiro religioso na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, possibilitando o acompanhamento de momentos relacionados a sacralização (matança) e ao Batuque (Nação Cabinda), respeitando os limites estabelecidos pelos próprios praticantes quanto ao registro e à exposição dos elementos sagrados. Foram realizadas entrevistas com Mãe Ana de Xangô, Pai Auri de Oyá e Mãe Viviane de Iemanjá, cujos relatos contribuíram para compreender diferentes trajetórias religiosas, formas de transmissão do conhecimento, organização das comunidades e significados atribuídos às práticas religiosas. As entrevistas também permitiram compreender como o preconceito é percebido pelos próprios praticantes e quais estratégias são utilizadas para preservar e transmitir os fundamentos religiosos. Mãe Viviane, por exemplo, relacionou diretamente o preconceito ao desconhecimento e à criação de representações negativas sobre as religiões de matriz africana. A partir da apuração, foi desenvolvido um site interativo na plataforma Readymag, tendo sua identidade visual e logo elaboradas no Canva. A plataforma digital possibilitou reunir diferentes formatos jornalísticos em uma mesma experiência narrativa, incluindo informações introdutórias sobre as religiões afro, reportagens sobre o terreiro e sobre o preconceito religioso, três entrevistas, um glossário com termos específicos das tradições abordadas e um quiz relacionado aos conteúdos apresentados. O glossário foi utilizado como recurso de contextualização, permitindo ao leitor compreender termos próprios das religiões abordadas, enquanto o quiz buscou estimular a participação e retomar informações apresentadas nas reportagens. o site também conta com uma editoria destinada a uma reflexão pessoal sobre o processo de produção, funcionando como uma espécie de carta do autor sobre a experiência vivenciada durante os quase dois meses de desenvolvimento do projeto. Entre os resultados, destaca-se a possibilidade de utilizar recursos de interatividade para aproximar o público de um tema frequentemente apresentado por meio de esteriótipos e interpretações externas as próprias comunidades religiosas. A experiência de campo também possibilitou compreender a importância da escuta e do contato direto com as fontes na construção de uma narrativa jornalística sobre grupos historicamente marginalizados. Nesse sentido, a abordagem da sacralização de animais buscou apresentar o ritual a partir da perspectiva dos praticantes, considerando sua dimensão religiosa e comunitária e os debates relacionados à intolerância religiosa. Durante a apuração, foi possível observar que a prática possui significados específicos dentro da comunidade e está relacionada a uma organização ritual que envolve rezas, preparação, participação coletiva e alimentação. A produção também evidenciou a necessidade de cuidado ético na cobertura jornalística de práticas religiosas, principalmente em relação à autorização para registros e à exposição de elementos sagrados. O acompanhamento das atividades demonstrou que nem todos os momentos podem ser registrados ou apresentados publicamente, tornando necessário respeitar os limites estabelecidos pelas fontes e pela comunidade. Como resultado, o projeto demonstrou que as narrativas digitais podem ampliar as possibilidades do jornalismo ao integrar texto, imagem, entrevista e interatividade em uma experiência de leitura não necessariamente linear. A combinação desses recursos permitiu apresentar diferentes perspectivas sobre o tema e criar formas distintas de acesso às informações.

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Publicado

2026-10-02

Como Citar

Narrativas Digitais Sobre Religiões de Matriz Africana: Uma Experiência Jornalística Sobre Intolerância Religiosa e Sacralização de Animais. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 18, 2026. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/122506. Acesso em: 26 out. 2026.