O Impacto do Mundo Virtual na Primeira Infância: Percepções e Evidências Sobre o Uso de Telas

Autores

  • Maitê dos Santos Estela
  • Sarah Gonçalves Saraçol
  • Alice Araujo Mendes Cougo
  • Vilmar Pina Dias Júnior

Palavras-chave:

Tecnologia, Desenvolvimento, Infantil, Saúde, Mental

Resumo

O uso excessivo de telas na primeira infância constitui um dos grandes desafios do século XXI, uma vez que a tecnologia, embora traga inegáveis benefícios no acesso à informação, à comunicação e ao lazer, também apresenta riscos quando introduzida de forma precoce e desregulada. Diante da recente publicação da Lei 15.100/25, que restringe o uso de celulares nas escolas, como forma de buscar informações sobre a rotina das crianças com as telas, é imperioso buscar essas informações como forma de auxílio à adaptação. Diversos organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021), orientam que crianças menores de dois anos não tenham qualquer contato com dispositivos eletrônicos e que, a partir dessa idade, o tempo de exposição seja rigidamente limitado a uma hora por dia, sempre com supervisão de um adulto. Apesar dessas recomendações, o cotidiano das famílias contemporâneas revela uma realidade diferente: crianças ainda em fase de desenvolvimento neurológico passam longos períodos diante de televisões, tablets e celulares, muitas vezes como forma de distração ou até de substituição da presença ativa dos cuidadores. Esse cenário levanta preocupações acerca de impactos no sono, na aprendizagem, nas habilidades sociais e até na saúde mental e física, incluindo risco de obesidade, ansiedade e depressão. A pesquisa realizada buscou compreender tais efeitos por meio de uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório, desenvolvida em uma escola infantil da cidade de Bagé-RS. Foram aplicados questionários estruturados de múltipla escolha a pais e cuidadores de 85 alunos entre 2 e 6 anos, abrangendo turmas do Infantil 2 ao Infantil 5, além de observações práticas com dinâmicas lúdicas. Essas atividades incluíram pinturas com giz de cera, danças, brincadeiras como morto e vivo e elefante colorido e exercícios de respiração, permitindo avaliar aspectos como concentração, interação social, criatividade e autorregulação emocional. O objetivo foi não apenas levantar dados quantitativos sobre tempo de uso e idade de início do contato com as telas, mas também observar na prática as repercussões desse hábito na rotina e comportamento das crianças. Dos 85 questionários enviados, apenas 31 retornaram preenchidos, representando 36% da amostra, o que já evidencia uma baixa participação dos responsáveis e sugere certo desinteresse em relação ao tema. Os dados coletados mostram que 67% das crianças utilizam telas todos os dias e 32% de forma eventual, enquanto apenas uma pequena parcela respeita as orientações de tempo máximo indicadas pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). A idade de início do contato também é alarmante: 29% foram expostas antes de completarem 1 ano, 58% entre 1 e 3 anos, e apenas 12% após os 3 anos. No que se refere ao tempo de exposição, 64% permanecem mais de uma hora diária em frente a telas e 9% têm acesso livre, situação que estudos da Universidade de Cambridge relacionam à queda no desempenho escolar. Quanto ao tipo de dispositivo, 22% das crianças já possuem aparelho próprio, 32% utilizam apenas televisão e 45% têm acesso por meio de aparelhos de familiares, o que amplia o risco de conteúdos inadequados e de exposição a crimes virtuais, tema sensível diante do aumento de 190% das denúncias registradas pela Polícia Federal em 2021, conforme dados da Safernet Brasil. Os resultados apontam ainda que 45% dos cuidadores notaram mudanças comportamentais nos filhos, como impaciência, irritabilidade e dificuldade de concentração. Tais achados dialogam com estudos da Fiocruz, que evidenciam que a estimulação imediata das telas pode prejudicar o desenvolvimento da atenção, aumentar impulsividade e dificultar a autorregulação emocional. Nas atividades práticas, observou-se que muitas crianças apresentavam dificuldade em seguir regras, manter a atenção ou esperar a sua vez, além de demonstrarem inquietação e resistência a limites, o que reforça o impacto direto do uso precoce e intenso da tecnologia. Embora parte dos alunos tenha demonstrado entusiasmo e criatividade durante as dinâmicas, uma parcela considerável mostrou sinais de desinteresse ou irritação quando não podiam controlar as atividades, o que remete ao modo como as telas oferecem gratificação instantânea, moldando comportamentos menos tolerantes à espera e à frustração. Em discussão, conclui-se que a introdução precoce e não regulada das telas compromete múltiplas dimensões do desenvolvimento infantil: a cognitiva, pelo prejuízo no aprendizado e na linguagem; a social, pelo afastamento das interações presenciais e pelo risco de isolamento; e a emocional, pelo aumento de ansiedade, impulsividade e possíveis transtornos futuros. Além disso, a pouca devolutiva dos formulários e a falta de envolvimento dos pais refletem a terceirização do cuidado para os dispositivos tecnológicos, fenômeno que contribui para a naturalização do uso abusivo. O estudo, portanto, reforça a urgência de ações conjuntas entre família, escola e socie

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

O Impacto do Mundo Virtual na Primeira Infância: Percepções e Evidências Sobre o Uso de Telas. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 2, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121834. Acesso em: 17 maio. 2026.