Da Violência à Graça: o Sincretismo na Religiosidade Brasileira

Autores

  • Amandha de Abreu Espindola
  • Tamires Cassal Gauna Godoy
  • Tiago dos Santos Rodrigues

Palavras-chave:

Religiões, Matriz, Africana, Sincretismo, Catolicismo, Umbanda

Resumo

Para grande parte da sociedade, a religião é um dos principais meios onde o sujeito busca estar inserido em um mundo de acordo com suas crenças e sua fé, trata-se de uma das mais importantes manifestações culturais existentes, e com o propósito de compreender tais manifestações culturais, o presente trabalho, que procederá por meio de levantamento bibliográfico e análise in loco de espaços de culto, tem como intuito pesquisar o surgimento das religiões afro-brasileiras e o sincretismo religioso que se manifesta entre essas religiões e o catolicismo, mais notadamente na Umbanda. A origem das religiões afro-brasileiras se encontra no contexto histórico da escravidão no Brasil, quando ocorre a Diáspora Africana para as terras brasileiras. Todavia, a religião que predominava no Brasil no momento era o Catolicismo, e qualquer outra doutrina era considerada ilegal. Arrancados de suas comunidades de origem e de seus modos próprios de organização social, política, econômica e cultural, os africanos levados pela diáspora enfrentaram uma dupla ruptura, por um lado de território e por outro lado de liberdade, pois, ainda na África, ao serem capturados em guerras, sequestrados ou vendidos, ficaram privados da liberdade e de decidir seus próprios caminhos, e posteriormente, no chamado Novo Mundo, para onde foram conduzidos contra a própria vontade, os africanos encontravam-se privados de meios efetivos de inserção social, exceto na condição de escravizados. Ainda assim, a resistência ao processo de exploração e violência a que foram submetidos não se apoiava, em um primeiro momento, em recursos materiais, econômicos ou políticos, mas sobretudo na preservação da sua integridade física e moral, tanto individual quanto coletiva, sustentada pela memória ancestral e pelos valores culturais transmitidos pela coletividade. Com isso, os trabalhadores escravizados sentiam que era indispensável buscar conforto nas suas tradições religiosas, isto é, em suas entidades, pois, para eles, a religião significava promover conforto aos seus corações aflitos e por isso buscavam força e resistência por meio de sua fé. Portanto, a presença de povos africanos na colônia portuguesa trouxe, entre outras diversas contribuições, sua religiosidade e o culto aos Orixás, entidades vinculadas às forças da natureza e dotadas de características próprias, comparáveis às divindades de outras tradições culturais. Além disso, os Orixás são concebidos como guias e regentes da vida humana, influenciando aspectos da personalidade e acompanhando os indivíduos em sua trajetória existencial. Com essa necessidade dos povos cativos de adorar seus Orixás e cultuar sua religião, a configuração religiosa no Brasil estruturou-se a partir de um processo sincrético, no qual a Igreja Católica, embora detentora de posição dominante, não permaneceu imune às influências da comunidade africana. Este processo sincrético foi de mão dupla, tanto as religiões de Matriz Africana incorporaram práticas e elementos simbólicos do catolicismo, quanto a prática católica também incorporou das tradições das religiões de Matriz Africana elementos de sua religião. Tal assimilação de referências culturais constituiu, desde então, uma expressão concreta de sincretismo religioso, que nasce dessa repressão, ou seja, da proibição dos negros em cultuar sua fé em suas entidades. Contudo, se a Umbanda, assim como outras vertentes de religiões de Matriz Africana, buscou pelo sincretismo um meio de legitimidade, é possível afirmar também que essa religiosidade brasileira pode ser considerada como uma metáfora do processo de miscigenação da nossa sociedade. Conforme traz Marcelo Alonso Morais em seu texto O sincretismo religioso como elemento legitimador da Umbanda: uma breve reflexão a partir da obra Casa Grande e Senzala, citando nisso Renata de Castro Menezes, o sincretismo religioso constitui não apenas uma característica particular dessa religiosidade, mas também uma das singularidades da sociedade brasileira. Desse modo, afirma-se que o sincretismo envolvendo santos católicos, Orixás, divindades indígenas e outras entidades de outras tradições, originado no período colonial, constitui um elemento fundamental da Umbanda. Tal processo integra a própria configuração da religiosidade brasileira, que se desenvolve a partir da intersecção entre diferentes práticas religiosas e o catolicismo introduzido pelos colonizadores portugueses. Em síntese, muitos africanos convertidos ao catolicismo passaram a cultuar santos católicos que, de alguma forma, apresentavam características ou histórias semelhantes aos Orixás.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

Da Violência à Graça: o Sincretismo na Religiosidade Brasileira. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 2, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121560. Acesso em: 14 jun. 2026.